Volta e meia recebemos aqui no blog email de pessoas elogiando nosso trabalho (que é feito apenas por prazer). Volta e meia recebemos amigos querendo escrever alguma coisa por aqui, e com enorme satisfação publicamos seus guest posts.
Dessa vez, um desconhecido – que talvez já possamos chamar de amigo – viu a série dos 4 posts sobre o show, se empolgou e mandou o dele. E que puta post! Um relato de alguém, que assim como nós 3 aqui do “A Day”, é apaixonado pela música e por tudo que ela traz junto dela.
Abaixo o texto integral do cara. Obrigado João Zanetti, pelo carinho do email, pelo puta texto e por compartilhar desse mindset com a gente.
(Antes de mais nada, eu não estava na mesa do pessoal dos textos anteriores, e nem participei de combinado nenhum. Mas eu também estava lá, pra mim também foi incrível, e ao ficar sabendo, hoje, da proposta, não consegui me conter. Segue aqui mais uma visão de um cara que viu o Swell Season em São Paulo e quis compartilhar a emoção.)
Eu conheci Swell Season como a maioria das pessoas conheceu até agora (por “agora” leia antes do show e da inclusão de Low Rising na trilha sonora de Passione): Pelo filme irlandês independente Once, filme esse que, olha só que coisa, minha namorada alugou porque achou a capa bonita e gostou da sinopse. E isso é compreensível, tendo em vista a divulgação zero que o filme teve aqui no Brasil – inclusive, o fato de o filme estar ali na locadora do bairro já é uma vitória.
Beleza, dvd na gaveta, play. A partir daí começa uma lista de 10 surpresas que eu acredito que quase todos os fãs tiveram durante suas trajetórias com o Swell Season:
1. “Nossa, esse cara canta muito”, quando o filme começa, na rua, com Glen cantado sozinho, sem microfone (guarde essa informação);
2. “Gente, olha o violão desse cara! Todo zoado!” (essa também);
3. “Que fofinha essa moça!”;
4. “Nossa, que músicas lindas!”;
5. “Puxa, que filme incrível!”.
Mas o bicho pegou mesmo na hora em que eu fui dar uma lida na internet sobre o que tinha acabado de ver: 6. “NOSSA! O filme é independente e eles não são atores!”;
7. “MEU DEUS eles tem uma banda!!!”.
A partir desse ponto, a paixão por Swell Season já existia no meu ser, e com o tempo não fez outra coisa senão crescer e virar amor, desses grandes, que a gente já sabe que vão durar pra sempre.
No mesmo dia eu já tinha a trilha sonora do filme, e logo ouvia o Strict Joy, o segundo álbum da carreira deles (mas primeiro creditado de fato ao grupo The Swell Season – no primeiro, que leva o nome da banda como título, o registro é apenas “Glen Hansard & Marketa Irglova”). O contato com The Frames, banda original de Glen, também foi inevitável.
De qualquer maneira, Swell Season era algo que eu tinha consantemente no meu celular e no computador, que eu ouvia muito e que eu nem imaginava ir a um show a curto prazo. Quem sabe um dia, se eu for pra Irlanda, se eles ainda estiverem na ativa, né? 8. “Eles vem pro Brasil?”
9. “EM AGOSTO???”
Com ingressos da área vip comprados com boa antecedência, eu e minha namorada fomos pra São Paulo na sexta. Já imagina, né?
10. “Nããão, ele tá fazendo isso mesmo?”, quando Glen abriu o show cantando Say It To Me Now sozinho, sem microfone (lembra disso?), com aquele violão destruído (disso também?).
Sem exagero nenhum, esse show foi um dos eventos mais emocionantes que já presenciei.
Aliás, “sem exagero nenhum” é uma expressão que casa prefeitamente com a postura do grupo, como já foi dito aqui nos textos anteriores, por tocarem e agirem de forma tão natural, por terem nada mais que a música como combustível de quaisquer reações do momento do show, das quais separo duas que me tocaram particularmente:
- A reação singela de Marketa ao retirar sua postura ao piano, virando-se e cruzando as pernas, esperando primeiramente Glen terminar o que foi quase um stand up sobre o trânsito paulistano e suas Hondas (que é como ele se referia às motos), e depois o resto da banda acabar de improvisar uma música sobre as próprias Hondas, com direito a uma egraçadíssima coreografia do cantor. O legal, ao olhar para a cantora tcheca, era ver sua expressão paciente e divertida de quem diz “ah, esses meninos que não crescem nunca, viu…”;
- A reação explosiva de Glen durante uma música solo, desplugando furiosamente o violão do equipamento que estava com problemas e indo à frente do palco cantar ao melhor estilo Busking, só que pra um HSBC Brasil inteiro, a principio tomado pelo burburinho mas logo depois maravilhosamente calado em respeito a quem eu acredito que possa ser o melhor cantor da atualidade. Calado por fora, mas certamente em êxstase interno por estar vivendo aquilo, como eu fiquei. Pra coroar o momento que já era insequecível, Glen vira-se entre dois versos e solta um “Sorry” meio tímido para o desesperado membro da equipe técnica que já se empenhava em consertar seja lá o que tivesse ocorrido.
O som, falando nisso, estava ótimo. O negócio é que eu acho que ainda não há tecnologia que aguente o que Glen faz ao violão. É feeling, é intensidade, é energia demais pra cabos e caixas de som. Vai ver é por isso que ele gosta tanto de cantar na rua.
Só no fim é que aconteceu a única coisa problemática: O show acabou.
Mas foi incrível. E lendo o texto do Zannin, abri um sorriso na parte em que ele fala sobre agradecer antes mesmo de parabenizar, porque também foi o que eu falei pra eles (infelizmente por twitter, e não no camarim): “Thanks”.
E depois de tudo isso eu nem posso adicionar uma surpresa a mais pra listinha, porque o que eu pensei e comentei foi exatamente o que eu queria: “Sensacional. Um dos melhores shows da minha vida!”
Antes de começar, queria dedicar esse texto pro grande amigo e irmão Fred Heimbeck, e agradecer aos meus outros 3 irmãos Zannin, LG e Piccinini pela companhia no show e pelos posts irretocáveis.
Depois desses 3 posts fodásticos, fica difícil achar algum elogio, alguma sensação, alguma emoção que ainda não tenha sido descrita, ainda mais por pessoas como as que já escreveram: todos apaixonados pelo filme e pelas canções, como eu. Todos nós estávamos reunidos naquela mesa pelo mesmo motivo: a identificação absurda e a paixão incontrolável por cada nota composta por Glen e Marketa para as músicas desse nosso – como bem disse o Zannin – filme de cabeceira.
Sobre o show: as expectativas foram mesmo superadas. Desde a abertura inesperada – e unplugged de verdade! – com a poderosa Say It To Me Now até o ápice final com Falling Slowly, os caras mostraram a mesma humildade, o mesmo talento, a mesma paixão em tocar que se vê no filme. E isso foi uma das coisas mais legais do show. Por vezes, parecia que você estava lá participando do momento deles, você não era simplesmente um público vendo uma banda. Era mais uma cena do filme, mais um episódio da vida deles que eles – acaloradamente – convidavam você para fazer parte.
Glen e Marketa são os mesmos do filme. Sem estrelismos, sem posturas de showbizz, sem frescuras. Estavam tocando como se estivessem na sala de casa. Só faltou eles oferecerem uma cerveja e um pratinho de queijos.
Glen é um show à parte. Feliz da vida, empolgado, excitado com o que faz, elétrico, o cara parece uma criança na distribuição de presentes de natal. Muito, muito, muito contagiante a performance dele. Você sai do show cansado de ver ele gastando tanta energia. Fenomenal, mesmo. Só depois de ve-lo ao vivo é que você realmente entende porque o violao fica naquele estado de destruição. É tudo fruto de um amor e um tesão infinitos pela arte de tocar violao. E Glen a executa com uma entrega que dá gosto de ver.
Marketa é mais contida, e tudo o que Glen tem de elétrico, ela tem de precisa. Cada nota do piano sai calculadamente, com a dinâmica e a duração perfeitas, incontestáveis. E a mesma precisão se reflete em seus backing vocals. É uma musicista erudita até no jeito de se portar.
Entre uma música e outra, comentários engraçados, histórias da banda, falas em português perfeito e até um samba improvisado na hora em “homenagem” aos motoboys de São Paulo, rs. Os caras são bons de verdade.
O show deles é mais legal do que outros shows justamente porque parece que você é um amigo de longa data dos dois. Você viu o filme, você conhece a história, você sente uma intimidade que não existe em outras relações ídolo-fã. Até porque eles são tão próximos que é dificil classifica-los de ídolos. Eles são, sim, dois seres humanos como nós, que sentem e que sofrem e que amam e que se entregam aos sonhos como qualquer um de nós faz – ou tenta fazer.
Lindo show. Um espetáculo de performance e, principalmente, de humanidade. Confira Falling Slowly no registro abaixo (feito pela minha querida Dani Mochida, namorada e companheira de todas as horas, todas as músicas e melhores momentos da minha vida). Uma aula de paixão pela vida e amor pelo que se faz.
Obrigado, Glen e Marketa.
Agora vocês já sabem o caminho. É só aparecer.
(Não é isso que a gente sempre diz pros amigos mais próximos?)
Mais um sobre o show do Swell Season em SP. Agora é a vez do Piccinini, ele que fez aquele post sobre o show do Franz Ferdinand em março. Agora só falta a bomba que o Cotta vai soltar no post dele.
Se você viu o filme “Once”, se você ouviu Swell Season, faça um favor: defina-os. Eu te desafio.
Eu li na Veja que era uma dupla “Folk”. Na Folha, apenas o “duo vencedor do Oscar”. Tente a sua. Não tenha medo de errar. Eles dois não têm.
A gente vai em shows por motivos que ultrapassam a razão, mesmo estando sempre à mercê dela. Isso porque vamos em busca de um momento pessoal com nossos artistas favoritos, e o que costumeiramente encontramos é algo tão bem ensaiado que beira o fordismo.
Pois na sexta, eu, Cotta, Dani, Zannin e LG entramos no magnânimo HSBC Brasil e fomos recebidos por um barbudo com um violão todo fudido, tocando sem cabos e cantando sem microfone. Acústico para 1.500 pessoas. Simples assim. E o que se seguiu foi reflexo da inquietude desse cidadão, contrastando com a competência e timidez quase ingênua de uma menina se desdobrando para falar português sem sotaque. Ele quebrando tudo (inclusive equipamentos) como se estivesse com raiva, ela sussurrando como se estivesse com vergonha. Mas nada calculado. Eram as reações deles para o que estavam fazendo. Para ela, música é singelo. Para ele, é intenso. Para ambos, é lindo.
É como se o favor de estar lá fosse deles, e não nosso. Era um show de rua. Eu paguei 200 reais para ver um show de rua, com pessoas se esforçando ao máximo para fazer valer cada centavo que nós colocamos no chapéu.
Definições são racionais demais. Mas se quiser tentar, vá em frente. Eu fico com as emoções, as mais básicas até: eles tocam para se sentirem bem. E assim, pedindo licença e desculpas, eles vão fazendo você se sentir igual. Parece correto para você?
Continuando com a série de posts sobre o show do Swell Season em SP, apresento o post de hoje, que é do amigo LG, que foi um dos primeiros a me falar desse filme, é redator e quase um músico de rua. haha.
“Make art! Make art!”
Quando – de Oscar em punho – Glen Hansard disse estas palavras, certamente não era um caso de “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.
Acompanhado da perfeição técnica de Markéta Irglová, o que Glen faz no Swell Season é a mais pura arte, que fui privilegiado de testemunhar ao vivo nesta sexta-feira especial.
Mas eu gostaria de começar este texto falando sobre o meu amor pelo filme “Once”, traduzido longamente para o português como “Apenas Uma Vez”.
“Once” é um dos meus dois filmes preferidos. E já era assim desde os dois primeiros minutos. Como struggling musician que sou, me emocionei e me inspirei com o roteiro. Ou melhor, os roteiros: o da ficção e o da vida real. Se era possível, com uma handycam e baixo orçamento, produzir uma jóia tão preciosa, eu podia ficar tranqüilo quanto aos meus sonhos: na arte, o que vale é o coração, a alma.
O que me leva de volta ao show.
Nunca vi tanta paixão em cima de um palco.
Glen canta com a alma, literalmente dispensando o microfone, como bom busker. Ele toca – com a alma, claro – cordas de violão que parecem feitas de adamantium. E também com a alma, faz piadas e músicas incidentais até sobre motoboys insandecidos deste país que talvez nunca imaginara visitar.
Na plateia, eu testemunhei o profundo respeito de fãs que ficaram em silêncio para escutar os músicos. Afinal, nada pior que pagar caro para ouvir milhares de pessoas em um karaokê etilicamente desafinado. Especialmente quando se tem a oportunidade de ouvir Glen e Markéta.
No bis, após a apoteose “Falling Slowly”, vi uma multidão hipnotizada chegando mais e mais perto do palco. Todos queriam ficar mais perto daquela força, todos queriam se banhar no poder da arte.
Nunca vou me esquecer daquela sexta-feira na companhia de The Swell Season. Foi quando eu presenciei a absoluta alegria de uma banda em poder exercer sua arte. A tradução mais perfeita do que é ser um músico. Strict joy.
Bom. Sexta foi o dia do show e no calor dos acontecimentos combinamos que cada um dos amigos que estavam ali na mesa conosco, escreveria um texto para cá. Para que eu não seja humilhado por três redatores, começo os trabalhos. Então tem mais. Vamos lá:
Nunca imaginei que pudesse ser tão bom. Melhor ainda que no filme ou no disco. Na última sexta-feira pude ver, ouvir e sentir ali de perto na primeira fila, algo que filme nenhum faz com a gente. Foi quase como transformar o filme em musical da broadway, só que sem atores.
Once, como já falei no post sobre o filme/trilha é um filme fantástico, mas infelizmente é daqueles filmes que pouca gente conhece. Se você não conhece, vá atrás. Insisto na dica porque quero mesmo que esse espaço aqui seja genuinamente um lugar para compartilhar o que de melhor passa pelos meus ouvidos. Mas voltando ao filme… A mistura de roteiro, música e vida real faz com que você crie múltiplos elos de ligação emocional, ora com o filme, ou com a música, com o casal, com a situação deles no filme ou na vida real.
Minha maior tolice nesse papo todo sobre filme e trilha, e sobre letra e música, foi achar que essa íntima relação era privilégio de poucos amigos que se deixaram envolver. De poucas pessoas que como eu, usaram como trilha e inspiração aquela história linda que foi vivida do jeito que dava, e principalmente com um violão em punho. Mas não. Sexta-feira eu estava acompanhado de milhares de malucos que como eu, que fizeram de Once um ‘filme de cabeceira’ e que estavam lá, felizes, ansiosos e realmente tendo um reality check sobre o que escutamos e sobre a experiência de um show verdadeiro. Fazia tempo que eu não presenciava algum evento musical com expressão tão genuína como pude ver nesse show.
A abertura já era um aviso do que estava por vir. Glen sobe ao palco sozinho, arruma o microfone e o ignora. Pega o violão, aquele mesmo surrado violão do filme, e vai pra beirinha do palco, ali na frente com todo mundo, e como se estivesse em uma rua da Irlanda, começa o show com Say it to me now. A projeção da voz do cara é assustadora, e mesmo sem microfone tenho certeza que ele foi ouvido por cada uma das pessoas ali dentro.
Markéta e banda entram no palco e sem tempo para respirar, seguiram com All the Way Down, Low Rising, In These Arms, The Rain, Feeling the Pull, Lies, If You Want Me, Fantasy Man, Leave… caramba. 21 músicas no set. Em Lies, ele no violão e Markéta no piano fazem um dos melhores momentos do show, tavez só superada por Falling Slowly (que tem um Oscar que a credencia). O som que ele tira daquele velho Takamine é inacreditável. Só vendo ao vivo para perceber como ele consegue esburacar o corpo do instrumento. É tudo tocado com tanta intensidade e que eu não me espantaria se ele quebrasse algo no palco.
A banda com 6 integrantes assumiu várias formações durante o show. Como estrutura deixava disponível: baixo, violão, voz, piano, violino, gaita, guitarra e bateria. O que mais surpreendia é que todo mundo que tava no palco passou por um workshop de humildade onde trocaram todos os créditos de pose por créditos de feeling e competência. Dependendo da música, esses seis humildes integrantes soavam como um músico de rua ou como uma orquestra.
No final do show, tive mais um privilégio: ir ao camarim.
No curto caminho pelos corredores do backstage do HSBC Brasil, fui pensando o que eu iria dizer para aqueles dois notáveis músicos que sem nem saber, tanto cuidaram de uma rachadura no meu coração, e que fizeram tantas pessoas ao redor do mundo acreditarem no amor.
Subi ali e enquanto assinava o bluray do Cotta resolvi agradecer. É, agradeci por terem feito um trabalho tão inspirador, tão verdadeiro e com enorme poder curativo. Surpreso pelo agradecimento no lugar dos parabéns, Glen só me falou: “WOW. That’s something! Thanks a lot. We are ver proud of this”.
Que bom que pude viver isso na nessa sexta-feira. Que bom que pude agradecer.
28 de julho de 2010. Hoje faz exatamente 1 mês (e dois dias) que eu realizei um dos maiores sonhos da minha vida. Hoje faz exatamente 1 mês (e dois dias) que eu vi, ao vivo, o Sir Paul McCartney.
Foi em Cardiff, País de Gales, Reino Unido que a magia aconteceu. A cidade – que deve ter mais ou menos o tamanho de um tabuleiro do Jogo da Vida e o PIB maior do que o da America Latina inteira – amanheceu radiante naquele Sábado. “Hoje tem show do Paul McCartney aqui!” dava pra ver a empolgação nos locais. E essa empolgação se refletia nos turistas, nos comerciantes, nos funcionários da estação de trem, nos quartos esgotados dos hotéis, nos avisos dos supermercados restringindo a venda de cerveja a 4 latas, no máximo, por pessoa. Afinal, tinha que ter pra todo mundo. Tinha que ser justo com todo mundo o dia mais importante do ano no Pais de Gales.
Chegando aos portões do imponente Millenium Stadium, eu ainda não conseguia me dar conta do que estava prestes a acontecer. Vi o show de abertura dos Manic Street Preachers (bem bom, por sinal) e não conseguia compreender que em poucos instantes eu estaria frente a frente com uma das lendas vivas do rock, com uma das personalidades mais emblemáticas do século XX, com um dos responsáveis pela maior banda de todos os tempos.
E, pelo visto, eu não era o único a alimentar essa ansiedade. O estádio foi enchendo pouco a pouco e, antes das 7 da noite, já tinha todos os lugares ocupados. Civilizada e irritantemente ocupados. Não dava nem pra tentar angariar um gargalo ou uma grade. Os seguranças europeus são implacáveis. Mas graças à minha querida Daniela Mochida (a quem credito esse dia inesquecível e os registros que você vai ver abaixo), meu lugar na segunda fileira do show estava garantido. E assim, mesmo com toda a rigidez galesa, eu tive a honra e o privilégio de contemplar Sir Paul a pouquíssimos metros de distancia. E testemunhar, finalmente, o espetáculo histórico de um musico lendário.
Telão. Videozinho de abertura. Burburinho ansioso toma conta do estádio. Roadies terminando de preparar o palco. Seguranças tomando suas posições. Máquinas fotográficas aquecendo seus flashes. E o coração do Cotta avançando pela garganta.
Luzes apagam. Palco acende. Público urra.
Entra a banda. Um por um. Ouvem-se os primeiros acordes das guitarras estridentes nos P.A.s gigantescos do estádio ultramoderno. Espinhas dorsais redefinem os valores da escala Richter.
Eis que então, surge no palco, ovacionado unanimemente, Sir Paul McCartney. Sorridente, acenante, simpático como todo ídolo deveria ser. Violão em riste e microfone a postos. E o show começa com Venus and Mars, clássico dos Wings, de 1975. E imediatamente depois, Jet. E o coração do Cotta já pedindo as contas no RH.
Se você pensar friamente, é só um “velhinho” de 68 anos tocando baixo. Mas de repente você olha pro palco e vê aquele cara. Aquele cara que fez parte da banda mais influente da história, que revolucionou o comportamento da geração dos seus pais, que produziu uma das obras mais sólidas e consistentes da cultura ocidental, que fez as musicas que você cresceu ouvindo e que definiram muito do seu caráter. E aí vc repensa e se toca de que está diante do cara que fez boa parte da trilha sonora da sua vida. E parece que passa um filminho na sua cabeça (aquela história clássica, só que por um bom motivo) que te faz voltar e entender de novo o porquê de aquilo ser tão importante pra você, e justamente o porquê de você estar ali onde você está, naquele momento. E aí cai a ficha: vc está vendo o Paul McCartney, porra!
E aí ele despeja aquela enxurrada de clássicos, só pra testar o quão forte seu coração é. Ou não é. Eu me segurei bem até começar Let Me Roll It, e daí em diante foi só choradeira. Soluço, mesmo. É impossível conter a emoção, e mesmo você já sabendo de cor tudo o que ele vai tocar… Poxa, é claro que você sabe que ele vai tocar Let It Be, você sabe que ele vai tocar Band On The Run, você sabe que ele vai tocar Hey Jude. E quando toca, é incontrolável.
O que você não sabe é que ele também toca I’m Looking Through You, Dance Tonight, Ram On, Obladi Oblada, Paperback Writer, A Day In The Life e Day Tripper. E o mais legal é que você olha praquela banda irretocável, aqueles músicos jovens e cheios de gás, e olha para o Paul… e vê que o Paul tem mais gás do que todos eles juntos.
O homem tem 68 anos de idade e toca com o tesao de quem tem 25. O homem faz um show de quase 3 horas de duração e não demonstra o mínimo cansaço. Ao todo, foram 37 músicas divididas em bloco principal e dois bises. E ele canta tudo, nota por nota, de Blackbird a Helter Skelter sem perder a voz. É de dar inveja.
Aqui embaixo vc vê um curto registro de I’m Looking Through You (cujo vídeo ficou meio tremido dada a empolgação!) e Let Em In (uma das minhas preferidas da carreira solo dele e uma das surpresas mais legais do show pra mim, um puta presente).
Os registros são simbólicos e importantíssimos, e capturam um pouquinho da emoção que foi estar lá vendo esse fenômeno que é o Paul McCartney. Se desse, teríamos filmado o show inteiro. Mas não tem problema, esses outros registros já estão pra sempre gravados na minha memória e no meu coração.
Se você conhece o Flaming Moe, já sabe que meu texto vai ser quase que uma roubada no jogo. Se não conhece, na seqüência entenderá porque.
Flaming Moe é uma das minhas bandas do coração. Acompanho desde seu inicio em 2003 e seguramente foi a contato e admiração que me fizeram querer subir num palco e ter um gostinho do que é aquilo tudo.
A banda é isso. 5 amigos de escola que enlouqueceram ao escutar Hellacopters antes da maioria das pessoas ter a mínima idéia do que era isso. O gênero, definido como stoner rock, é uma mistura endiabrada de riffs vindos do hard rock, devil girls, peso do metal, litros de cerveja, preguiça e larica vindos você imagina de onde, tudo isso jogado dentro de um velho conversível em alta velocidade pelo deserto de nevada. É pesado, é melodico, é rápido e bem trabalhado. É um chute no saco.
Flaming Moe é pura gasolina, e as apresentações ao vivo valem qualquer ressaca. É tudo tão surpreendente, tão competente que se você não percebeu ainda que é uma banda de amigos meus, poderia imaginar que são gringos loucos da california. Quem já viu sabe do que estou falando.
Mas essa banda é do coração por incontáveis motivos além do som. Peruche, Gui, Vitor, Caio e Hugo estudaram comigo na escola. Participei de praticamente tudo o que aconteceu com eles, de todas as brigas, shows, gravações, viagens, festivais, composições, canjas, bebedeiras, ensaios e acontecimentos que mudaram a trajetória da banda e de nossas vidas. São todos amigos/irmãos que sempre fizeram tudo no máximo, da vontade ao volume.
Soul Hunter é o primeiro álbum, conclusão de um trabalho que começou com EPzinho e participações em coletâneas. Onze músicas minuciosamente trabalhadas – produzidas e gravadas pelo amigo Tomas Thornhart. Meses de trabalho, cigarros e bebedeiras que tive o prazer de participar, tanto na autoria de uma das musicas como na gravação de backing vocals para 2 delas. São onze porradas na orelha, ora na esquerda, ora na direita e as vezes o telefone completo com as duas mãos.
É um disco sem descanso, sem baladinha de “baby come back”, sem economia de volume, riffs e gritos. Muitos gritos. Oh Yeah, o provável grande hit da banda inicia o disco, abrindo caminho para Nitro Z entrar acelerando e trazendo todos os clichês automotivos que eu possa escrever. Bail Out, essa do vídeo aí de baixo eu não vou nem falar, vá ver. Vasalube é uma homenagem ao lubrificante anal que aparece no Kill Bill haha. Lovebringer é o momento mais doce do Peruche, mereceria cascudos se não tivesse feito uma puta música. Wrong Side é um petardo que termina com um grito daqueles que você não aguentaria nem tentar fazer e que dura mais tempo do que você imagina. O Gui é um caso a parte. Um dos melhores vocalistas de rock que eu já vi. Um doente mental no palco. Só vendo pra entender. In My Mind tem 3:20 mas deveria ter 4:20, é aquela pausa pra você relaxar os ouvidos e continuar com a sequencia: Red Woman, The Outsider e The Journey, essa com meus suaves ‘lá lá lás” ao fundo. O disco termina com Explode My Life Again, a mais longa e psicodélica da banda.
Inútil falar de destaques. Inútil falar mais sobre o som ou sobre o que eles representam pra mim e pra minha historia com a musica. Tá pensando que Flaming Moe é bagunça? É. Então vamos aos fatos:
Você acaba de ganhar a oportunidade de vivenciar esse blog de um outro jeito. Ao invés de clicar no videozinho do youtube como sempre, você vai poder fazer duas coisas, sendo que uma delas só é possível ser feita hoje e em São Paulo.
1) O Flaming Moe caga e anda pro mercado fonografico e disponibiliza todo seu album para download gratuito. Download it all, just fucking click: http://www.flamingmoe.com.br/soul_hunter/
2) Hoje o Flaming Moe toca no CB, com sua nova formação (o Hugo, baterista virou neuro-cirurgião e agora o FM conta com o Pinho ogrando nas baquetas).
Para endereço, preço e bla bla bla, passa lá no Facebook que tem tudo: http://www.facebook.com/event.php?eid=127594083921109. E mais, excepcionalmente nesse show, vão rolar 5 músicas novas e nunca tocadas ao vivo \m/ Se for, vá cedo. Lota e ficam uns 500 pra fora (não é exagero).
E para sentir o drama, veja o trecho do episódio 7 de Alice (série da HBO) com o Flaming Moe tocando Bail Out e com épico mosh da gostosinha da série no fim do video.
E sim. O nome Flaming Moe vem daquele episódio dos Simpsons, o mesmo que o Aerosmith toca na Taverna do Moe.
1970, 1 ano após os 3 dias de Woodstock que mudaram o mundo e a história da música, Joe Cocker, um dos mais doidos daquela época e dono de uma das minhas vozes preferidas do rock n soul, lança Mad Dogs & Englishmen, um disco duplo, ao vivo quase que integralmente de covers, e provavelmente um retrato definitivo sobre a mistura de rock n roll e soul que virou assinatura do cara.
O disco é recheado de pérolas, hoje chamadas de clássicos. Acompanhado por uma banda incrível, um enorme coral e prrovavelmente por uma quantidade incalculável de substâncias ilegais, Cocker entrega um daqueles shows que te fazem ter vontade de viajar no tempo e tomar uma breja com o cara. Essa época inclusive é marcada pela lenda dos 2 anos de blackout, onde diz-se por aí que Joe não lembra de absolutamente nada do que viveu ou fez. Hahaha. Great times!
São ínumeros os sucessos: Honky Tonk Women dos Stones, Cry Me a River, Feelin’ Alright, Let’s Go Get Stoned, O Blue Medley, com I’ll Drown in My Own Tears, When Something is Wrong With Me Baby de Isaac Hayes e I’ve Been Loving You Too Long de Otis Redding. Ainda temos Girl from the North Country de Bob Dylan, Give Peace a Chance (imortalizada pelos Beatles) e She Came in Trough the Bathroom Window de Lennon e McCartney.
Por sinal, esse é um tema que eu preciso pesquisar qualquer hora. Cocker e Beatles. São tantas versões e parcerias que provavelmente tem alguma história boa escondida por ali. A última delas em 2007, foi no Across the Universe, filme/musical que usa Beatles como guia para retratar o turbulento final dos anos 60. Cocker aparece e canta no filme em algumas ocasiões, a mais marcante delas como um mendigão maluco que canta Come Together, essa que parece ter sido feita pra voz dele.
Enfim, esse e qualquer outro disco do Cocker até o final dos anos 80 são viagens sensacionais. Bom pra deixar rolando a tarde e principalmente música boa pra esquentar o clima nuns amassos no carro. Te salva de qualquer situação onde a moça que te acompanha não esteja cedendo aos seus encantos.
Uma pena que Marjorine não esteja nesse disco, uma das minhas favoritas. Bom, fora do clima de romance e sedução, fique com Feelin’ Alright, música fodassa que já foi gravada por um monte de gente, inclusive pro fabuloso Grand Funk Railroad.
Certo. Esse não seria o título ideal pra falar do Foo Fighters, mas eu precisava cutucar o PG depois daquele fucking post sobre o Oasis (que eu adoro, mas que não é a melhor banda nem a pau. haha). Então, foda-se se é melhor que o Oasis (que é) e vamos então simplesmente falar sobre por que o Foo Fighters é fodaralhasso. Nessa pilha dos trabalhos do Taylor Hawkins, e também pela ReBokel que anda viciada e só fala comigo sobre isso, cabei entrando na mesma onda. E já alerto, até porque é inevitável: vou confundir várias vezes o que é o Dave Grohl e o que é o Foo Fighters.
Imagine só que você está em 1994. Aquele genial loiro ceboso, líder de um movimento que mudou a história do rock tinha acabado de estourar os miolos. Imagine que você é aquele esquisito cabeludo, sentado lá no fundo, e então decide montar uma banda. Essa seria, 15 anos depois, a salvação do rock. Calma, guardem suas pedras. Sim, Foo Fighters é provavelmente a última banda de rock de arena, daquelas viscerais e sem artifícios eletrônicos (não que eles sejam ruins). OK. Joguem as pedras agora.
Dave Grohl é um caso a parte.
1) O cara era o baterista da banda mais expressiva e transgressora dos anos 90.
2) O cara é fundador, frontman e multi-instrumentista do Foo Fighters.
3) O cara gravou a bateria de Songs For the Deaf, talvez o primeiro grande álbum dos anos 2000, e merecedor de um extenso post só pra ele.
4) Ele foi o baterista das músicas do filme AND o Diabo em Tenacious D – The Pick of Destiny, fantástico filme pra loucos viciados em rock, estrelado por Jack Black – que faz o papel de… Jack Black mesmo. haha
5) Foi baterista convidado por uma série de artistas, dentre eles: Tenacious D, QOTSA, Juliette and The Licks, Cat Power, David Bowie, Nine Inch Nails e por fim, o mais recente disco do Slash.
6) No show de gravação do DVD Live at Wembley Stadium em 2008, esses 4 putos convidaram Jimmy Page e John Paul Jones pra uma jam, e tocaram Rock n Roll e Rumble On do Led pra 80 mil pessoas, criando um clássico instantaneo pra história dos shows de rock.
7)Them Crooked MOTHERFUCKING Vultures. A união suprema de três baluartes da estragação, dos três maiores causadores de ressacas e flashbacks, da tríade da libertinagem: Dave Grohl – o animal, Josh Homme – O Evil Elvis e John Paul Jones – A freaking Zeppelin.
Se não bastasse a onipotência de Grohl, o FF é composto por mais 3 talentos, que depois de algumas mudanças no começo da banda, ficaram fixos desde 1999. Nate Mendel no baixo, Chris Shiflett na guitarra e o já super citado aqui Taylor Hawkins que além de suas peripécias com os Coattail Riders, foi o cara que gravou outro grande disco, o Jagged Little Pill da Alanis Morissette em 96. Adoro pensar na grande turma de músicos lá de fora. Se fizermos os cruzamentos de toda a cena do rock dos anos 90 e 00 vamos ver muita gente amiga por lá.
Esse disposto quarteto, conseguiu nesses 15 anos 6 ótimos álbuns de inéditas, sendo um deles duplo e incrível. Alguns registros ao vivo e uma respeitável notoriedade, já que em todo esse tempo foram raras as notícias não relacionadas a musica dos integrantes. Realmente um exemplo para esse mundo corrompido por franjas, topetes, calças coloridas, escândalos, instrumentos quebrados, hotéis destruídos, reabilitações e adultério – obviamente importantes e igualmente respeitados pra história desse gênero tão amado por esse diretor de arte boca suja que insiste em escrever. Foo Fighters é rock n roll, gelado, servido em copo de plástico. Atitude sem pose, sem excesso e com ótimos exemplos tatuados para a tradicional família americana.
Certo. Foo Fighters nesse momento já mijou na cabeça dos dois irmãos britânicos, mas agora é que vem a parte legal e mais difícil. Destacar aqui algumas das músicas fodas que eles colocaram na rua. Muito difícil mesmo. Nem vou encanar na ordem, e como escrever depende de ordem, conto com a sua abstração em não pensar na porra da ordem enquanto estiver lendo. Grato. haha. Tá. Se você for um pouquinho neurótico como eu, não vai conseguir esquecer da porra da ordem, então vamos de cronológica mesmo:
Foo Fighters (1995)
O cara mete I’ll Stick Around, que te faz pensar que os tempos de Nirvana iriam continuar, mas logo em seguida manda Big Me. Lembra aquele clipe do Mentos/Footos? Então era esse. Música bonitinha. haha.
The Colour and the Shape (1997)
Nesse momento do mundo, eu bombando o primeiro colegial e pirando em Monkey Wrench, My Hero, Everlong e Walking After You. Lembro claramente da época que a MTV passava clipes e que assistia várias vezes o cara salvar as pessoas do incêndio. Algo me diz que fiz bem em não ficar estudando. Curiosamente eu aqui procurando no Youtube pelas músicas pra linkar acabei descobrindo que os quatro destaques viraram clipes. Awesome.
There’s Nothing Left to Loose (1999)
O tempo vai passando e o número de músicas pra se falar vai aumentando. Esse disco, vá se foder né? Quantas noites fritando o Winamp do Pentiumzinho escutando Stacked Actors, Breakout, Learn to Fly, Generator, MIA… Ridiculo esse disco. A redefinição dos gritos no rock radiofônico.
One by One (2002)
Puta que pariu. Me lembro de ir na loja comprar a edição especial com DVD tosquinho de extras. Esse cd morou no meu carro boa parte daquele 2o ano da faculdade. All My Life abrindo o disco. Ainda uma das músicas mais fantásticas do FF. Grito com vontade nos ensaios do Lazy Dog, só de farra. Mas o disco é muito feliz. Times Like These, Tired of You, Halo, Lonely as You com aquele climinha de fim de filme, Overdrive – talvez o efeito que mais defina o som do FF.
In Your Honor (2005)
O duplo que dividiu as águas em 3 partes. Esse é foda de eleger. Ao invés de linkar todas, vou só embedar Best of You, que é um absurdo. Mas o disco é recheado de pérolas. In Your Honor, No Way Back, DOA, The Last Song, Free, The Deepest Blues Are Black, End Over End, Razor… foda. É tudo muito foda. Pare de ler isso aqui e vá escutar.
Echoes, Silence, Patience And Grace (2007)
Nesse gap de 2 anos eu tinha meio esquecido do FF. Tava ouvindo outras coisas. Aí um dia, um redator que trabalhava comigo me passou o link do clipe de The Pretender, naquela divulga pré-álbum. Explodiu minha cabeça. Viciei no single e aguardei muito o lançamento do disco. ESPG é o maior passo que o FF já deu. Talvez por trazer Long Road to Ruin, uma das prováveis melhores músicas da história da banda. O disco é fantástico. Let it Die, Come Alive, But Honestly e que fecha com Home, uma coisa linda.
Se teve saco de chegar até aqui, e ainda lembra do que é Oasis depois disso, vai lá escutar I Am The Walrus (essa sim da melhor banda de todos os tempos). Mas, se chegou até aqui querendo escutar Foo Fighters, fique com Long Road to Ruin e The Pretender – que o youtube fdp não deixa embedar:
Ontem a noite recebi do fabuloso Pedro esse texto sobre sua conversão ao universo do Radiohead. Eu mesmo já passei por isso, felizmente a tempo de ter visto o show da tour do In Rainbows aqui no Brasil – um dos melhores da minha vida. Pedro Oliveira é amigo de longa data, designer, músico e sound designer de primeira categoria. Fez um dos projetos universitários mais fodas que eu já vi. Hoje mora e estuda na Alemanha. Leia abaixo o texto dele.
Radiohead sempre foi uma das bandas que eu mais torci o nariz. Radiohead sempre foi a banda que eu simplesmente odiava. Não era 100% gratuito, convenhamos: some a cabeça de um adolescente que descobriu o heavy metal com a repetição constante na TV de uma propaganda, de um assunto deveras delicado, com uma trilha sonora praticamente suicida e você tem aí uma boa equação para o repúdio. Comigo funcionou assim.
Aos meus 14 anos, um disco chamado “A Change of Seasons” caiu na minha mão. Em uma semana eu estava fascinado pelo Dream Theater. Obcecado, eu diria. Em tempos pré-internet, a nem tão falada banda ficava sempre “de escanteio” nas revistas de metal, faltando assim informações mais interessantes sobre aqueles que seriam meus novos ídolos. Alguns anos mais tarde li uma entrevista, acho que numa saudosa COVER GUITARRA, com John Petrucci – obviamente minha inspiração diária para querer tocar notas na velocidade da luz – e o mesmo citava “The Bends” na sua lista de melhores discos de todos os tempos. Torci o nariz, de novo, mas dei um jeito de escutar. Não desceu. A tal música daquela propaganda estava lá.
Em várias publicações de música que lia, todos falavam bem do Radiohead, exceto, claro, as revistas “especializadas” de Metal. Lembro-me de sorrir de canto ao ler uma resenha do “Ok Computer” à época de seu lançamento, RECHAÇANDO o disco. Eu não era o único, veja você. Mas fui lá e ouvi o disco, cheio de pré-conceitos e preconceitos. Odiei, obviamente.
Pule para 2007. Em vias de conclusão da faculdade, estava dando um jeito de colocar cada vez mais música no meu tema de pesquisa (e meio que deu certo, mas isso é outro assunto) e pesquisando sobre bandas que estavam pensando na música “do futuro”; de novo alguém citava os benditos ingleses do vocalista esquisito. Até então eu tinha conseguido ignorá-los, restringindo minha atenção às piadas idiotas sobre a banda só para irritar meus amigos que a idolatravam (sim, eu sou esse tipo de pessoa, shame on me…), mas bem, o tal do “In Rainbows” estava lá de graça para ser baixado e eu pensei: “porque não?”. E dei mais uma chance, prometendo a mim mesmo que seria a última.
15 Step, Bodysnatchers, “hmm tem coisa boa aí”, Nude, “tem futuro”… WEIRD FISHES-ARPEGGI. Fim da história. Estava “fisgado” (perdão pelo trocadilho infame). A música ficava no repeat. Eu escutava, envergonhado, aquela música entrar nos meus ouvidos e fazer cafuné no meu cérebro. Como se fosse um pecado para mim mesmo, eu estava sem saída: teria que confessar. A escolhida foi minha namorada, que caiu em gargalhadas. Em seguida, ao me “flagrar” pela internet ouvindo Radiohead, veio a ex com um “EU SABIA QUE ESTE DIA CHEGARIA!!”. Abaixei a cabeça, e aceitei minha derrota.
É engraçado, pois eu conheci Radiohead “de trás para a frente”; e devo dizer que os primeiros discos ainda não me agradam muito (salvo uma ou duas músicas). Em contrapartida, “Ok Computer” fez todo o sentido do mundo e o “Kid A” é quase uma oração, uma aula de música. Não diria que me tornei aficionado por Radiohead, mas diria que finalmente, depois de mais ou menos dez anos, eu entendi. Dizem que existem bandas que você só vai entender depois dos vinte – quiçá dos trinta. Outras, que você só entende até os dezoito, graças a Deus. Radiohead, a meu ver, ultrapassou a barreira de “triha sonora para adolescente” (aka Creep e afins) para realmente um ground break na música como a conhecemos. Amém.
Ilustro o texto com as três preferidas: Weird Fishes, Everything in its Right Place e Idioteque, todas ao vivo, pois é ainda mais absurdo.
Rodrigo Zannin
Escuta discos inteiros e na ordem, mesmo sem tempo pra ouvir tudo o que quer. Nerd que canta, escreve, aprende a tocar guitarra e faz belos 'leiautes'.
Felipe Cotta
Pseudo-baterista, pseudo-redator, apaixonado por música. De Mozart a Massive Attack, ouço tudo que é feito com a alma.
Palmito
Não é vegetal e se adapta em diversos habitats: shows, estudios, luais...
Mantém relação simbiótica com a música e um apetite insaciável por qualquer tipo de som.
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