Ontem a noite recebi do fabuloso Pedro esse texto sobre sua conversão ao universo do Radiohead . Eu mesmo já passei por isso, felizmente a tempo de ter visto o show da tour do In Rainbows aqui no Brasil – um dos melhores da minha vida. Pedro Oliveira é amigo de longa data, designer, músico e sound designer de primeira categoria. Fez um dos projetos universitários mais fodas que eu já vi . Hoje mora e estuda na Alemanha. Leia abaixo o texto dele.
Foto por Silvio Tanaka
Radiohead sempre foi uma das bandas que eu mais torci o nariz. Radiohead sempre foi a banda que eu simplesmente odiava. Não era 100% gratuito, convenhamos: some a cabeça de um adolescente que descobriu o heavy metal com a repetição constante na TV de uma propaganda, de um assunto deveras delicado, com uma trilha sonora praticamente suicida e você tem aà uma boa equação para o repúdio. Comigo funcionou assim.
Aos meus 14 anos, um disco chamado “A Change of Seasons” caiu na minha mão. Em uma semana eu estava fascinado pelo Dream Theater . Obcecado, eu diria. Em tempos pré-internet, a nem tão falada banda ficava sempre “de escanteio” nas revistas de metal, faltando assim informações mais interessantes sobre aqueles que seriam meus novos Ãdolos. Alguns anos mais tarde li uma entrevista, acho que numa saudosa COVER GUITARRA, com John Petrucci – obviamente minha inspiração diária para querer tocar notas na velocidade da luz – e o mesmo citava “The Bends ” na sua lista de melhores discos de todos os tempos. Torci o nariz, de novo, mas dei um jeito de escutar. Não desceu. A tal música daquela propaganda estava lá.
Em várias publicações de música que lia, todos falavam bem do Radiohead, exceto, claro, as revistas “especializadas” de Metal. Lembro-me de sorrir de canto ao ler uma resenha do “Ok Computer ” à época de seu lançamento, RECHAÇANDO o disco. Eu não era o único, veja você. Mas fui lá e ouvi o disco, cheio de pré-conceitos e preconceitos. Odiei, obviamente.
Pule para 2007. Em vias de conclusão da faculdade, estava dando um jeito de colocar cada vez mais música no meu tema de pesquisa (e meio que deu certo, mas isso é outro assunto) e pesquisando sobre bandas que estavam pensando na música “do futuro”; de novo alguém citava os benditos ingleses do vocalista esquisito. Até então eu tinha conseguido ignorá-los, restringindo minha atenção à s piadas idiotas sobre a banda só para irritar meus amigos que a idolatravam (sim, eu sou esse tipo de pessoa, shame on me…), mas bem, o tal do “In Rainbows ” estava lá de graça para ser baixado e eu pensei: “porque não?”. E dei mais uma chance, prometendo a mim mesmo que seria a última.
15 Step , Bodysnatchers , “hmm tem coisa boa aÔ, Nude , “tem futuro”… WEIRD FISHES-ARPEGGI . Fim da história. Estava “fisgado” (perdão pelo trocadilho infame). A música ficava no repeat. Eu escutava, envergonhado, aquela música entrar nos meus ouvidos e fazer cafuné no meu cérebro. Como se fosse um pecado para mim mesmo, eu estava sem saÃda: teria que confessar. A escolhida foi minha namorada, que caiu em gargalhadas. Em seguida, ao me “flagrar” pela internet ouvindo Radiohead, veio a ex com um “EU SABIA QUE ESTE DIA CHEGARIA!!”. Abaixei a cabeça, e aceitei minha derrota.
É engraçado, pois eu conheci Radiohead “de trás para a frente”; e devo dizer que os primeiros discos ainda não me agradam muito (salvo uma ou duas músicas). Em contrapartida, “Ok Computer” fez todo o sentido do mundo e o “Kid A ” é quase uma oração, uma aula de música. Não diria que me tornei aficionado por Radiohead, mas diria que finalmente, depois de mais ou menos dez anos, eu entendi. Dizem que existem bandas que você só vai entender depois dos vinte – quiçá dos trinta. Outras, que você só entende até os dezoito, graças a Deus. Radiohead, a meu ver, ultrapassou a barreira de “triha sonora para adolescente” (aka Creep e afins) para realmente um ground break na música como a conhecemos. Amém.
Ilustro o texto com as três preferidas: Weird Fishes , Everything in its Right Place e Idioteque , todas ao vivo, pois é ainda mais absurdo.
E sim, eu ainda ODEIO Fake Plastic Trees.