Tuesday, 26 de July de 2011 | 17:58 - Por

Estou ouvindo incessantemente o disco novo do Chico Buarque. Graças a Deus ele ainda está vivo e presenteia a gente com músicas novas de vez em quando. E, a cada nova audição, a coisa está se complicando. Fica melhor, mais bonita, mais delicada, mais incomparável, mais nobre, mais inteligente, mais impressionante.

Comecei a ouvir Nina e já estou há umas duas horas nela, no repeat. Não consigo sair. Não quero sair dessa música. Cada vez que ouço de novo me impressiono com outros versos. Com uma fotografia nova da história, com a sutileza da descrição do romance. Com o deslumbre do protagonista pelo Google Maps. Como é que pode o cara descrever um namoro virtual com essa delicadeza? É muito bonito como ele faz a analogia da própria valsa – que é o ritmo da música – com o furor do romance que não existe (mas que no fundo existe). E como ele vai pra noite de Moscou depois de “alguma vodca”. É sutil e inteligente demais.

Que bom ver que o tempo não afeta sua genialidade. Aliás, pelo contrário: a cada álbum, Chico volta cada vez mais refinado, mais cuidadoso e mais caprichoso com cada verso, com cada nota, com cada suspiro que se escuta. Os arranjos estão primorosos. Dá gosto de ouvir. Dá orgulho da música brasileira (coisa cada vez mais rara hoje em dia).
O ouvinte atencioso vai perceber que o Chico deste novo disco não tem, na verdade, nada de novo (apesar do frescor absurdo de cada canção).

Todos os mini-romances passam por caminhos já visitados em sua obra. O pivete de Querido Diário, que luta para sobreviver, foge da cidade em contramão, sonha com o que pode (com religião, com mulheres sem orifício) e “não quebra não†porque é macio, os apaixonados de “Se eu soubesse†e “Essa pequenaâ€, que fazem lembrar as paixões incandescentes do funcionário e da bailarina, e da ostra e do vento.

Chico nos faz lembrar que é o romancista e o ourives da palavra quando apresenta os personagens de Essa pequena: “Meu tempo é curto, o dela sobraâ€. O romance entre um velho e uma menina então deslancha, em desconexões e objetivos cruzados, mas que no final valem a pena ser vividos, nem que seja para salvar o blues.

E assim é todo o disco, todo Chico. Chico como ele sempre foi, com as novas visões saborosas do cotidiano que só ele sabe ter. “Sou euâ€, delicioso samba-canção com a participação especialíssima de Wilson das Neves, Barafunda, Sem Você número 2(homenagem ao clássico de Tom e Vinicius) estão entre as mais bonitas composições de toda a sua carreira, e Chico fecha o disco com mais uma parceria bem-vinda. Sinhá, feita com João Bosco, encerra o novo álbum com um manifesto anti-violência, utilizando a alegoria da escravidão (escravidão que existe mascarada até hoje, talvez, como diria o protagonista de Querido Diário?).

Seja como for, o que importa é que Chico é simplesmente Chico, como todo mundo esperava mesmo que o álbum fosse. É um retorno grandioso, depois de 5 anos desde Carioca e um Leite Derramado no caminho, com um artista que sabe ser a si mesmo, mesmo se reinventando a cada nova obra. Como ele mesmo diz em Barafunda: “Salve este samba antes que o esquecimento baixe seu manto, seu manto cinzentoâ€. Salve, Chico.

Obrigado por nos lembrar que o samba bom ainda existe. Obrigado por salva-lo e tira-lo do esquecimento.

 
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3 comentários
 
  • 1. Joao Claudio
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