Eu amo os anos 70.
Foi uma década muito foda (desculpe o palavrão). Tanto na Inglaterra como nos EUA como aqui na Brasil, a produtividade musical que aconteceu no período de 70 a 78 foi absolutamente inacreditável. A qualidade do que se fazia era altíssima, e as barreiras criativas quase não existiam (existiam mais as políticas, que às vezes barravam as criativas, mas aí as criativas se tornavam ainda mais criativas para poder burlar as políticas. Pesquise sobre Chico Buarque e Julinho da Adelaide e você vai entender o que eu estou dizendo).
E, aqui no Brasil, a MPB vivia um de seus períodos mais férteis e incrivelmente criativos e ricos. Caetano, Chico, Milton, Gil, Jorge, Tom, Paulinho, Toquinho, Vinicius, Itamar, Rita, Arnaldo, Sérgio, Ney, João, Luiz, Gal, Maria, Elis … todo mundo estava a todo vapor, produzindo como nunca, e com uma qualidade incontestável. As discografias desse povo neste período todo viraram icônicas. Contestadoras, inteligentes, musicalmente desafiadoras, criativas, e sobretudo, extremamente brasileiras. Nosso país vivia um orgulho único no campo cultural – na música, na literatura, nas artes cênicas, no cinema – e o Milagre Econômico também provocava uma sensação inédita de patriotismo nas pessoas. (Tudo bem que depois a gente pagou um preço altíssimo por isso, mas essa questão não vem ao caso agora)
Do outro lado desta corrente criativa que formava a música brasileira naqueles dias, estavam Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Carlos Imperial, Wilson Simonal, Nara Leão e muitos outros, vindo quente que o público estava fervendo, depois de ter lotado todos os festivais da Record.
E adivinha quem ensinou Roberto e Erasmo a tocar violão?
Um carinha nascido na Tijuca, 18º filho de uma família de 19 irmãos e dono de uma musicalidade absolutamente inacreditável e absurda. Um sujeito que cresceu ouvindo samba e música popular americana, e que acabou trazendo para o Brasil um viés de soul e de groove que ninguém nunca havia sequer imaginado que poderia existir por aqui. Um porralouca que influenciou toda uma geração de músicos e que mostrou como é se faz som com técnica gringa em solo brazuca. Um mestre chamado Sebastião Rodrigues Maia.
Nascido em 1942 e morto em 1998, Tim Maia foi um furacão que passou pela vida destruindo tudo, deixando rastros marcantes na cultura e na música pop desta terra. Quando jovem, fez uma viagem pelos EUA que mudou sua vida e sua maneira de ouvir e pensar música. E, quando voltou pra cá, veio louco pra mostrar o que tinha aprendido, e determinado a conquistar seu espaço.
E olha… o cara não veio pra brincar. Os 4 primeiros discos de Tim Maia são uma sequência de obras de arte. O cara esbanjava uma musicalidade que é difícil de acreditar até hoje. E, quando você coloca o primeiro disco e ouve o baixo de Cristina, ou a melodia de Azul da Cor do Mar, ou o esbanjamento ridículo de potência vocal em Jurema, você entende a monstruosidade do homem. Era coisa de outro planeta. Ele misturava forró com samba com funk com soul com rock com groove com jazz. E criava um som com sua cara, e fez o queixo de todo mundo cair quando explodiu com seu álbum de estreia.
Repito que os 4 primeiros são as pérolas máximas e indispensáveis para qualquer pessoa que goste minimamente de música, e de si mesma. São discos clássicos e absurdamente incríveis, e – claro – estão repletos de hits que se tornaram hinos da nossa música para sempre. Mas o legal é ir além dos hits (até porque estes você sabe de cor, mesmo que ache que não sabe) e cavar mais fundo pra descobrir os tesouros escondidos.
Tim Maia fazia aqui um tipo de som pra Marvin Gaye ou James Brown nenhum botarem defeito. O cara era malandro até na hora de gravar. Cada nota é cheia de malícia, cada faixa esbanja uma musicalidade humilhante.
Antes de comentar disco a disco, três observações importantes a respeito de Tim Maia:
1) Por conta de sua veia americana, músicas em inglês sempre foram uma constante em sua carreira. Em quase todos os discos tem pelo menos uma. E em 78 ele fez um disco todinho em inglês. O legal dessas composições é que ele aproveitava pra deixar a letra em segundo plano (mais ou menos) e fazia sua banda esmerilhar o instrumental.
2) Seu comportamento contraventor e intempestivo sempre lhe trouxe muitas dores de cabeça, e um conseqüente rompimento de contrato com todas as gravadoras pelas quais passou. Mas o interessante é perceber que cada fase de sua carreira, cada música e cada disco refletiam um momento que ele estava vivendo. Seu disco de 72 é uma prova disso.
3) Nos anos 80, o mestre teve uma recaída e sucumbiu vertiginosamente ao brega. Pra mim, sua fase áurea vai até 1982, com o disco Nuvens. Depois ele se deixou levar por composições melosas demais, de gosto duvidoso.
Mas me diga um artista consagrado que não foi vítima dos anos 80? Se Paul McCartney pôde fazer Ebony & Ivory e se Stevie Wonder pôde fazer I Just Called To Say I Love You, por que o Tim Maia não podia fazer Me Dê Motivo?
Ainda assim, imerso no “breguismo”, Tim continuou a ser um baita hitmaker. E justiça seja feita: Descobridor Dos 7 Mares, Vale Tudo e Do Leme ao Pontal (três de seus maiores hits dos anos 80) são músicas espetaculares.
Agora vamos ao que interessa.
Tim Maia (1970)
O cara já me começa a carreira com Coroné Antonio Bento, um forrozão inacreditavelmente legal. Uma linha de baixo incrível faz a musica pulsar empolgante, e essa característica continua em Cristina (impecável) e Jurema, onde os metais e o vocal impecável de Tim roubam a cena. Azul da Cor do Mar e Primavera são aquelas duas pérolas imortais que você ouve desde que nasceu e sabe de cor até os momentos em que ele respira. Preste atenção em Você Fingiu e Eu Amo Você. Como é que alguém, em 1970, fazia um disco com uma sonoridade tão impecável assim? O instrumental é irrepreensível.
Tim Maia (1971)
Um dia eu chego lá, Festa do Santo Reis, Broken Heart (com seu inglês macarrônico) e I Don´t Know What To Do With Myself são geniais. Nesta última, a voz do mestre resplandece e o arranjo dos metais é fabuloso. E aqui neste disco tem um dos momentos mais bonitos e elegantes de Tim como compositor: Você. Sim, você também ouve essa desde que nasceu e também sabe de cor, mas já parou pra prestar atenção e mergulhar nela? Do sussurro inicial até o final apocalíptico, a dinâmica é perfeita e a banda transborda talento com os solos de guitarra que duelam com o berros finais de Tim. É pra morrer de saudade, mesmo.
Tim Maia (1972)
Pessoalmente, é o meu preferido. Este disco é violento. Maravilhoso. Pesado, denso, carregado de melancolia e de inspiração. Tim estava na fossa MESMO nesse momento, e quis expor suas cicatrizes abertas para o mundo, deixando bem claro que foi traído e que isso doía muito. O disco começa com a avalanche Idade, que derruba você já nos primeiros milésimos de segundo. A banda vem quebrando tudo, e Tim mostra que sua voz só parece melhorar com o tempo. O disco não fez um grande hit, mas ele inteiro é uma sucessão de socos no estômago. Lamento, O que você quer apostar (com seu diálogo genial entre cordas e sopros), My Little Girl e a tragicômica blueseira de Sofre são amostras de uma musicalidade que evoluía a cada ano e a cada desilusão amorosa. Ainda vou fazer um post só sobre esse disco um dia. É uma aula, um exagero de talento do gigante Tim Maia.
Tim Maia (1973)
Um dos mais bem sucedidos discos de Tim, este quarto álbum traz a inevitável Gostava Tanto de Você e o megahit Réu Confesso. Além dos hits, o disco brilha com O Balanço, Compadre, o samba New Love (composto durante sua viagem aos EUA), e Até Que Enfim Encontrei Você. Tudo é excelente, e Tim estava na crista da onda. Fazia tanto sucesso que a Polydor – gravadora destes 4 primeiros discos – deu a liberdade de Tim fazer de seu quinto disco um álbum duplo. Uma honrosa bonificação para qualquer artista. Tim aceitou de bom grado e começou a compor e a gravar, e seu próximo disco tinha tudo para ser O álbum duplo mais esperado da história. Até que…
Racional, vol. 1 e Racional, vol. 2
Ok, vamos lá. Muito já foi dito e redito sobre a fase Racional de Tim… que é isso, que é aquilo… O fato é que são, definitivamente, dois discos musicalmente maravilhosos. A banda estava redondíssima, Tim não estava mais se drogando, nem fumando, nem bebendo, nem comendo mal. Por conta disso, sua voz estava tinindo, mais afinada do que nunca, e ele esbanjou o gogó poderoso em todas as gravações desses discos. O resultado é uma experiência sonora única, e uma criatividade musical de dar inveja a qualquer banda gringa de funk até hoje.
Pena que as mensagens do disco tenham sido voltadas para a lenga-lenga do Universo em Desencanto, o livro que converteu TIm à ceita Racional e que fez ele brigar com a gravadora – e com o mundo inteiro. Os executivos da Polydor, quando ouviram que o tema do disco seria esse, trataram de romper rapidinho o contrato de Tim. Ele, então, sem ter como lançar o disco, fundou sua própria gravadora, a SEROMA – iniciais de seu nome, SEbastião ROdrigues MAia – e conseguiu fabricar os discos por conta própria. As vendas foram um fracasso, e depois de dois anos, o próprio TIm se desiludiu e rompeu com a Cultura Racional. Voltou às drogas, à prevaricação e porralouquice desenfreadas e reconquistou seus amigos e até sua ex-gravadora. Mandou tirar do mercado todas as cópias remanescentes do Racional e nunca mais tocou no assunto.
Sò que o disco tinha conseguido emplacar aquele que até hoje é lembrado como um dos seus maiores feitos: Imunização Racional (a fatídica música do Uh Uh Uh Que Beleza!). E, fora de catálogo, os discos se transformaram em objeto de culto entre seus fãs. Até hoje, 40 anos depois, esses vinis são disputados a peso de ouro no mercado paralelo e há quem pague até 500 reais por uma bolacha dessas. De fato, é uma raridade.
Nem tudo é genial no Racional (muito por culpa da repetição exagerada de Tim pregando a leitura do maldito livro), mas o disco tem músicas absolutamente lindas e brilhantes, como Guiné Bissau, Moçambique e Angola e Bom Senso. Esta, em particular, é um dos maiores petardos de sua vida, com um arranjo de derrubar qualquer maestro pomposo de inveja, de tão genial que é.
Tim Maia (1976)
De volta à Polydor. Tim voltava também à sua vida desregrada de antigamente. E à malandragem. Assim, fez de seu disco de 76 um apanhado de balanços geniais e totalmente voltados para a noitada, a dança, à vida boa e à boemia. As pérolas desse disco são a genial Rodésia, onde Tim arrisca uma flauta transversal, Dance Enquanto É Tempo, onde ele faz um mea culpa sobre sua fase racional, e Nobody Can Live Forever, mais uma de suas excelentes músicas em inglês.
Tim Maia (1977)
Agora na SomLivre, Tim se preparava para tomar de uma vez por todas as pistas de dança. E aqui ele se empolgou e transformou sua banda Vitória Régia na Cool & The Gang brasileira, praticamente. A maravilhosa Ride Twist And Roll não me deixa mentir, e deixaria até o Jamiroquai sem fôlego pra fazer algo parecido. Chega a ser um tapa na cara de tão bom e tão musical. Pense Menos é uma xaveco furado sensacional de tão canastrão, e o disco todo mantém uma linha discoteque que não deixa a peteca cair. Foi um disco discreto, mas pra mim é um de seus melhores.
Tim Maia Disco Club (1978)
Aqui a coisa pegou pra capar. O aquecimento de 77 virou o jogo oficial no ano seguinte, e o Disco Club foi a cartada de gênio do mestre no sentido de arrebentar o país na pista de dança. A trilogia de abertura do disco é genialíssima, e dá um prazer enorme de ouvir até hoje. Tim estava à vontade, estava novamente no comando da situação, e sabia que tinha feito um puta disco. Voltou a lotar shows e a ser ovacionado. E o mais legal é que ele fazia tudo isso tirando o maior sarro da vida cotidiana e driblando a censura com jargões internos de usuários de substâncias mais ilícitas, por assim dizer. Acenda o Farol, Sossego e A Fim de Voltar são, até hoje, símbolos máximos dessa fase de ouro de Tim. Mais grave, mais agudo, mais tudo. Discaço.
Depois deste, TIm ainda lançou outros quatro bons discos: Tim Maia (1978), todo em inglês e GENIAL, Reencontro (1979), mais um Tim Maia (1980) e o ótimo Nuvens (1982). Depois começou a fase “comercial” de TIm, menos interessante pra mim, mas ainda com bons momentos.
Pra encerrar, deixo você com algumas dessas pérolas que citei aqui nessa pequena grande homenagem. Ainda sonho em ver um novo talento surgir na nossa música que tenha um décimo da musicalidade de Tim, pra gente relembrar o que é ter uma música popular que nos dê orgulho novamente. Enquanto isso não acontece, fique com o mestre e divirta-se.
