Hoje o ilustríssimo Jeff Paiva faz sua estréia aqui no A Day in the Life. Outro maluco por jazz, mas com um romance com a França. Eis que então, ele descobriu algumas coisinhas e dividiu com a gente. Olha aí:
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Alguns clássicos devem fazer parte do repertório de quase todo jazzista. Os chamados “standards” são composições famosas que ganham diversas interpretações diferentes, com um lugar especial reservado para as traduções deletras para outras línguas.
Esta semana fui ao excelente All of Jazz, aqui em São Paulo, que tem uma bem fornida loja de CDs e vinis noandar de cima do placo. No intervalo das apresentações – sempre de ótima qualidade – o proprietário toca algumas de suas gemas. Eu comecei a ouvir ofamiliar tema de “I Wish You Love”, cuja gravação de Nat King Cole é das minhas favoritas.
Só que ao invés de “Goodbye… no use leading with our chins” na voz aveludada de Cole, ouvi “Ce soir, le vent qui frappé à ma porte, me parle desamours mortes devant le feu qui s’éteint”
Sabe a cena do cachorro que levanta as orelhas em surpresa, tentando identificar que raios é aquilo? Perguntei ao Deleuza, simpático dono da casa,o que era aquela gravação, e ele me mostrou o CD do francês radicado no Brasil Bernard Fines. Comprei a bolachinha e fui ouvindo já no carro. Logo mais à frente na plyalist, vem outra versão francesa, agora pra Autumn Leaves, consagrada na interpretação de Cannonball Adderley. Suprema “heresia”, uma versão para My Way, chamada “Commed’habitude” fecha o cd.
Fiquei encucado e fui buscar as origens destas versões tão legais. Para minha surpresa, nenhuma destas três composições é americana. As letras e melodias que ouvi são as originais!
A mais famosa delas, My Way, é original de 1967 e composta por Claude Françoise Jacques Revaux. A letra original fala de um casal numa relação conturbada, estagnada e é marcada pela repetição da expressão “como sempre”. Em uma turnê pela Europa em 1969, Paul Anka se encantou com a musica, conseguiu os direitos (DE GRAÇA) e reescreveu a letra. Sinatra e Elvis gravaram e o resto é história.
My Way
Comme d’habitude
Autumn Leaves, um dos mais conhecidos standards de jazz, também tem uma das mais famosas gravações na voz de Nat King Cole. Como instrumental, faz parte do antológico álbum “Somethin’ Else”, de Cannoball Adderley, com participação de Miles Davis e Art Blakey.
A original é de 1945, composta por Joseph Kosma e pelo poeta Jacques Prévert. Entitulada “Les Feuilles Mortes”, foi gravada por Yves Montand e aparece como trilha do filme Les Portes de La Nuit.
Autumn Leaves – Nat King Cole
Les Feuilles Mortes – Yves Montand
Fechando o trio, “I Wish You Love” é bem conhecida do público atual pelo destaque na trilha do suspense ‘Eye of the Beholder”, com Ewan McGregor e Ashley Jude (também adaptação de uma obra francesa, Mortelle Randonée, com Isabelle Adjani).
A gravação de Chrissie Hynde, do Pretenders, tocou em muitas FMs do Brasil.
Sua letra original é de Charles Trenet, composta em 1942 e chamada “Que reste-t-il de nos amours?”. Ao invés de desejar que o recém-rompido parceiro tenha felicidade na sua vida, como a letra americana, a versão francesa lamenta o amor perdido, e conjectura o que teria acontecido a todos os momentos felizes e doces que o casal passou junto.
I Wish You Love – Chrissie Hynde
Que reste-t-ill de nous amours?
Observando os originais e as versões, dá pra reparar que as letras francesas, de um modo geral, são mais pessimistas e/ou realistas que suas contra-partes americanas. Adaptação cultural, sem dúvida, mas também um quê daquela “tristesse” peculiar à música gaulesa.
É uma espécie de advanced phase no jogo, quando você ouve um conhecido fraseado embalando letras completamente diferentes, às vezes parecendo meioalien aos ouvidos de quem cresceu com as gravações consagradas.











