Como estou com o assunto atrasado, não vou chover no molhado. Não vou nem me importar com a falta de profissionalismo da dona Amy. Apesar da inquestionável qualidade musical, a pessoa não trabalha, não respeita quem paga para vê-la e não surpreende positivamente em nenhum aspecto do show que entrega. Nem nas versões ao vivo das próprias músicas ela nos presenteia com algo inesperado. Então tudo o que ela merece é esse primeiro paragrafo. O show, como show, foi bem ruim. Isso não quer dizer que ela não seja uma cantora excepcional. A única coisa que me incomoda é chamar uma alcoólatra, junkie, que tem menos de 30 mas parece ter quase 50, que tem apenas DOIS discos, de DIVA. Ta aà uma coisa que eu nem sei se ela vai chegar a ser um dia.
Mas vamos então falar do que interessa. A bomba atômica que Janelle nos deixou (e consequentemente atingiu a Amy).
Foto: Mayer Hawthorne por Jorge Rosenberg/iG
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A noitada começou com o ótimo aquecimento feito pelo Mayer Hawthorne. Ao vivo ele soa bem, é acompanhado de uma banda muito boa, e acredito ter conseguido passar o clima certo para a noite quente e felizmente sem chuva do sábado passado.
Nitidamente o cara está feliz com o momento e oportunidades que anda recebendo e aproveita tudo isso com alegria e competência, e o melhor: passa isso pro público. Carismático, fez piadas, falou com o público e rolou a bola direitinho pra Janelle continuar.
Agora sim. O show da Janelle Monáe. Como é bom ver alguém competente, atual, consciente do que está fazendo e principalmente, afim de se fazer inesquecÃvel. De tempos em tempos somos expostos a artistas que chegam por aqui e não querem ser encarados como qualquer coisa. Esse foi um dia desses. A começar pela introdução abaixo, coisa que confesso que nunca tinha visto em shows por aqui:
Boa parte do público nunca nem tinha ouvido falar da moça que aos 25 anos entrou no palco ao som de Michael Jackson como uma gigante veterana. Tudo no palco era pensado. Posição, figurino da banda, espaço livre pra ela dançar, imagens dos telões, setlist… tudo muito pensado. Ela sabia exatamente como queria ser vista e como estava sendo vista pelas pessoas. E acho que também sabia que era boa para cacete.
Mesmo sabendo que a estrutura do show é muito menor do que pode ser no futuro, vimos que nitidamente ela fez um aproveitamento supremo da oportunidade que lhe deram. Era tudo tão diferente e inesperado para mim – que estava lá para vê-la – que era impossÃvel não separar a cabeça, que procurava atentamente por cada detalhe do espetáculo, das pernas, que insistiam em se mexer incessantemente.
O show rolou como uma peça da broadway só que protagonizada por uma fanática religiosa daquelas das igrejas gospel que vemos nos filmes americanos. E parece assim porque ela se fez assim. Em algumas entrevistas por aÃ, li depoimentos onde ela confirma que aprendeu todos os seus movimentos com sua avó na igreja. Mas depois disso, sabe-se também que ela estudou teatro e se preparava para tentar entrar no mundo dos espetáculos da broadway quando realmente percebeu que é uma artista completa e precisava colocar tudo em prática.
E é isso que acontece. Durante o show, ela canta com uma competência Ãmpar enquanto dança como um jovem Michael – inclusive fazendo um impecável moonwalking no palco – e também divide seus movimentos com a banda e em uma das músicas com uma tela, onde pintou um quadro enquanto cantava.
Foto: Janelle Monáe por Jorge Rosenberg/iG
Mais fotos lindas aqui no link: http://especiais.ig.com.br/fotoshow/janelle-monae-em-sao-paulo/
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Quase no final do show dela, veio Tightrope, que acredito ser o single dela por aÃ, e a música que me fez procurar por mais coisas do trabalho dela. Claramente reconhecÃvel pela influência e produção do Outkast, Tightrope foi uma verdadeira explosão na cabeça das pessoas. Performance de tirar o fôlego e pedir por mais. É nessa hora que o cabelo, milimetricamente arrumado com um topete gigante, é solto e também milimetricamente esculhambado. Ela rola pelo chão, pula, gira, e dá um micro show de dança em cima de um palquinho pequeno montado em frente a bateria.
É impossÃvel não se espantar com a velocidade, precisão e elegância da esbelta moça dançando no centro do palco. Um desaforo. E um sopro de ar fresco no mundo das calças coloridas. Estavámos precisando de alguém autentico, competente e profissional para manter viva a idéia de música viceral feita com alma e vontade.
O show terminou e deixou as pessoas com uma enorme interrogação na cara. Foi um “MindFuck” irreversÃvel. Janelle é uma explosão.
Ouvi gente que não achou nada de mais. Mas essas pessoas pareciam não ser nada demais também, até porque foram as mesmas a comemorar cada vez que Amy bebia algo em sua canequinha no show seguinte.
Enquanto Amy se esforçava para lembrar as letras, entradas das músicas e de onde o chão estava, Janelle andava tranquila pela pista VIP. Sendo elogiada e sentindo porque o Brasil a recebeu tão bem.
Depois desse show, fico até com medo de ver o que essa moça vai fazer quando se apresentar no próximo Grammy Awards, onde concorre em duas categorias: Melhor performance urbana/alternativa por Tightrope e Melhor álbum de R&B contemporâneo com The ArchAndroid. Acho que ali ela pega o lugar dela e não sai nunca mais. Tomara.


