Thursday, 16 de December de 2010 | 2:03 - Por

Sons. Esse lance de levar a vida com trilha sonora é complicado. Veja bem. Se sua vida é levada sempre com músicas que tem certos fins, imagine só que as coisas ruins ganham trilhas também – o que pode arruinar uma música boa na sua memória.

Certa vez estava ali em alguma madrugada online dizendo para uma dessas pessoas, detentora de uma das trilhas da minha cabeça, que tinha um certo medo de compartilhar alguns sons. Que se desse tudo errado, eu teria que jogar um som bom no lixo. Junto com a própria memória, dentro do latão da coleta dos orgânicos. Ainda bem que ali eu não perdi nenhuma música boa.

Pois é. Esse tipo de coisa acontece. Você ganha trilhas para momentos fantásticos mas perde também. Do mesmo jeito que perde um pouquinho da sua audição cada vez que volta de um show com seu ouvido apitando. Esse não é o reflexo a um longa exposição ao som alto. Nem um dano causado pela desistência dos musculinhos do seu canal auditivo em proteger seu tímpano. Este é um aviso do seu ouvido dizendo que um pouco dele se foi. É uma manifestação para dizer que você não merece mais o silêncio ao dormir. Pelo menos não naquela noite.

E tem o som do problema. O som que ecoa em sua cabeça ao partirem seu coração – que se confunde até com o som de seus pedaços caindo no chão. Tem o som do olhar da despedida. Tem o som do depois, que como as teclas do piano, cutucam de leve cada uma de suas feridas.

Tem também o som do momento que você enxerga aquela mulher que você deseja, beijar o primeiro paspalho que passa na frente. Esses sons se misturam. Buscam em seu cerebro referências de todos os momentos negativos que lá estão armazenados. Vão de freadas de carros seguidos de batidas, até os gruturais gritos do Max Cavalera. Vão da repulsa ao comum de Marilyn Manson – que talvez seja o melhor representante do mix de confusão, ódio e decepção – até o profundo e gasto silêncio da solidão. Este, que assim como o barulhinho do seu ouvido apitando depois do show, serve para te avisar de uma coisa também: que ali você perdeu algo. Que ali um pedaço de ti se foi.

E para não terminarmos no silêncio deixo esse som, que é um abraço.

 
2 comentários
 
  • 1. Saulo Mileti
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