Tuesday, 14 de December de 2010 | 12:01 - Por

Em 1968, Miles Davis começou a transformar o mundo do jazz mais uma vez. O artista mais versatil e criador de tantos estilos se preparava para embarcar em mais uma aventura rumo à inovação e à fundação de mais uma pedra sagrada na história da música.

Com Miles In The Sky e In A Silent Way, configurava-se a segunda formação clássica do quinteto de Miles Davis, e essa turma estava prestes a mexer com as estruturas do jazz pelos próximos anos. Era o nascimento do fusion, estilo que – dizem os críticos – mistura jazz com guitarras e outros instrumentos elétricos comumente ligados ao rock n roll.

De fato, a nova banda de Miles tinha John McLaughlin na sua formação, e ele é mesmo um dos maiores guitarristas que se tem notícia – tanto na história do jazz quanto do rock. E o que ele, Miles, Chick Corea e cia. estavam fazendo mexia com os brios dos ouvintes mais puristas do que se chama de “jazz”.

“Jazz” é um termo abrangente demais. Diana Krall é jazz, o Bitches Brew é jazz. Tom Jobim é jazz. Jamiroquai pode ser jazz. Mahavishnu Orchestra é jazz. E agora?

Não importa. Quando se trata de Miles Davis, tudo é jazz. Tudo é apenas música. Tudo é reinventado e revolucionado. Esse foi o espírito que o guiou por mais de 4 décadas: o de fazer algo sempre novo. Sempre à frente, sempre instigante e provocando o senso comum.

Bitches Brew é a consolidação de mais um ímpeto revolucionário de Miles Davis. É a inauguração oficial do fusion como estilo musical, e a conquista de mais um espaço importante no então impenetrável mundo do jazz tradicional. Agora faz 40 anos que esse disco foi lançado, e até hoje ninguém entende ele direito.

Imagine então em 1970, quando as pessoas colocaram a agulha em cima desse vinil pela primeira vez e se viram diante de uma enxurrada de instrumentos novos e aparentemente desconexos, improvisando sem parar e em faixas de vinte minutos de duração?

Deve ter sido demais pra cabeça de quem esperava um outro Round About Midnight ou outro Kind Of Blue. O bom é que quem é fã de Miles Davis sabe que não se pode esperar a mesma coisa num próximo disco. E quem acompanhava de perto a evolução do músico já sabia que a fase elétrica estava ganhando cada vez mais força, cada vez mais corpo.

É um disco difícil de ouvir, e demanda paciência. São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo em composições complexas e longas. É experimental até o limite de cada músico, é desafiador mesmo pra quem já está acostumado com o estilo. Ao mesmo tempo, ele é tudo isso justamente por antecipar movimentos e maneirismos que seriam vistos no rock pelos anos que se sucederiam. Aliás, pensando bem, ele anteviu mesmo coisas que vemos no rock até hoje.

Como é geralmente praxe com discos `a frente de seu tempo, Bitches Brew também sofreu rejeições e críticas ácidas de muita gente (supostamente entendida) na época em que foi lançado. Hoje, 40 anos depois, é aclamado com uma das maiores obras-primas de Davis (ao lado de Kind Of Blue, Miles Smiles e On The Corner) e acaba de ganhar edições de luxo especialíssimas.

Aqui no Brasil, foi lançada uma edição bacaninha, CD duplo mais DVD com uma apresentação do quintet em Copenhagem, em 1969. Lá fora, saiu uma edição mega-blaster-super-luxo, com 3 CDs, 1 DVD, vinil duplo de 180 gramas, camiseta, poster, caixa de luxo e o escambau.

No mínimo, merecido.

 
3 comentários
 
  • 1. Saulo Mileti
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