Friday, 05 de November de 2010 | 11:41 - Por

Escrever sobre um disco como o Clube da Esquina não é tarefa fácil. Primeiro porque muito – ou tudo – já foi dito sobre ele, afinal, é um dos mais clássicos e conhecidos discos brasileiros de todos os tempos, tendo influenciado gerações no mundo inteiro desde seu lançamento, em 1972. Segundo, porque ele tem um valor sentimental tão grande, mas tão grande pra mim que fica complicado fazer qualquer análise ou comentário sem ser totalmente passional ou imparcial.

Pra me ajudar a descrever o que significa ouvir e se apaixonar por essa obra-prima da música mineira, chamei o Zannin pra dividir este post comigo. Assim como fiz com ele há quase três anos, sempre que posso eu presenteio um grande amigo com o Clube da Esquina. Amigos que amam música são praticamente a materia-prima desse disco e eu, na função de fã, me sinto na obrigação de compartilhar (com quem ainda não conhece) esta pérola maxima da cultura brasileira.

Não me lembro quando ouvi o Clube pela primeira vez. Só lembro de ter ficado sem reação depois que o CD terminou. E lembro de ter colocado pra repetir logo em seguida. E pra repetir logo em seguida. E pra repetir logo em seguida. Tive que escutar umas 5 vezes seguidas pra conseguir recuperar a consciência e o ar que me faltavam. O baque inicial é grande, o disco é duplo e complexo. Não dá, mesmo, pra absorver tudo na primeira audição.

E essa é justamente uma das maiores magias do Clube Da Esquina. Cada vez que você escuta, você descobre uma coisa nova, um detalhe novo, uma camada nova que você ainda não tinha absorvido. E a cada nova audição, seu coração fica mais rendido à beleza quase violenta de cada uma das 21 faixas. E você entende que a música brasileira nos anos 70 não era, de fato, um mero exercício de protesto ou de contravenção às normas estipuladas pelos militares.

Claro, havia – sim – o protesto e toda a alfinetada na ditadura. Mas o Clube da Esquina era, também, uma vitrine de musicalidade como nenhum outro disco brasileiro – desde os tempos de Tom Jobim – tinha sido até então. Fruto de uma amizade quase interiorana de jovens que viviam na turbulenta Belo Horizonte dos anos 60 e 70, o “Clube†era o apelido carinhoso que ganhavam os encontros de moleques humildes num boteco na esquina das ruas Paraisópolis com Divinópolis, no bairro de Santa Tereza, na capital Mineira. Eles se juntavam lá com seus violões a tiracolo e criavam, madrugada adentro, melodias e letras carregadas de emoção, de lirismo, de criatividade musical e – principalmente e acima de tudo – MUITA sinceridade.

Milton Nascimento – recém transformado em celebridade alguns anos antes, depois de ficar em 2o lugar no Festival Internacional da Canção em 1967 com Travessia – era o líder dessa turma que só tinha um ideal em comum: o da liberdade de expressão através de suas idéias mágicas. O que aqueles jovens faziam era transformar amizade, amor, ódio, receios, esperanças, sonhos e todos os tipos de sentimento, em música. E em música sólida, música como poucos músicos fora do circuito bossanovista jamais haviam tido a petulância de construir.

Entenda que o termo “petulânciaâ€, aqui, é usado no melhor dos sentidos. E eu agradeço a eles essa petulância. Essa cara-de-pau, essa vontade de mostrar ao mundo o que havia dentro de suas cabeças e corações. Graças a ela, eles conquistaram o mundo. O Clube da Esquina, o disco, é até hoje aclamado por músicos do mundo inteiro como referência de criatividade, de beleza, de técnica e de genialidade musicais. Isso porque o disco não tem um rótulo. Ele não é jazz, ele não é samba, ele não é MPB, ele não é rock. Contudo, ele consegue ser tudo isso ao mesmo tempo, de um jeito tão único que seu estilo só pode ser rotulato pelo próprio nome. E é essa versatilidade que conquistou os músicos do mundo todo: seu experimentalismo reinventa os maneirismos de cada estilo musical de um jeito unicamente brasileiro. Músicas como Cravo e Canela, Cais e Trem Azul eram tão inovadoras e tão brasileiras sem ser uma bossa nova ou um samba-enredo, que isso acabou chamando a atenção de quem procurava uma novidade pra escutar. E é dessa química entre o tropical e o universal que nasce o encantamento, e esse é um dos maiores méritos desse disco que foi tão controverso em seus próprios dias.

Ora, como assim um bando de moleques se atrevia a fazer música tão esquisita e tão pretensiosa, pensavam os críticos da época. Como podia, no auge do regime militar, no auge do movimento tropicalista, no auge da força do AI-5, no auge do “milagre econômicoâ€, no auge da intelectualização camuflada da juventude brasileira, um grupo de mineiros sem ter onde cair mortos fazer um album duplo que ia na contramão desse motim todo? Claro, o disco era engajado, mas de uma outra maneira. Eles hasteavam bandeira branca enquanto todo o resto do mundo se engalfinhava avenidas afora. E assim, era possível passar 3 minutos descrevendo Um Girassol da Cor de Seu Cabelo ou uma Paisagem na Janela e tentando fazer com que as pessoas relembrassem que a vida era muito mais do que politica.

E se fosse pra falar de política, a coisa era tratada com os menos óbvios meandros que se tem notícia. Dos cruces, Saídas e Bandeiras, Os Povos e Clube da Esquina no 2 misturam o contexto da época com outros momentos históricos do Brasil e do mundo, e plantam a semente da intelectualidade no ouvinte de um jeito muito mais mágico do que a mera contravenção. E o mais legal é que tudo faz muito sentido ainda agora, e por isso mesmo o album vence a barreira do tempo e ganha força a cada ano que passa. É atual como se tivesse sido escrito hoje.

Mas talvez não seja pela política que você vai ser pego pelo Clube. Eu (Zannin) fui pego mesmo, de verdade, ali na quinta música. Nuvem Cigana é o mais suave grito de amor que alguém pode soltar. A música é absurdamente arranjada com dinâmica crescente e envolvente, como uma paixão dessas acontece. O inicio calmo, cheio de promessas, se enchendo dentro do peito e criando coragem para no auge esquecer de tudo e pedir para que ela o acompanhe. Um duelo que o lado emoção do cerebro venceu. E como pensar que eles estavam fazendo isso lá no miolinho de Minas Gerais enquanto os Beatles faziam tudo aquilo lá na terra da Rainha? Enfim, a música termina em fade out, pois o pedido não termina. “Se você deixar o coração bater sem medo” ecoa reticente na sua cabeça, muito provavelmente até o final da 21a música que encerra a jornada.

Não é à toa que o disco, vira e mexe, figura entre os mais importantes de todos os tempos das listas que correm pelas revistas e publicações especializadas. Quem se deixa influenciar por sua magia não volta mais ao normal. Seja você um músico, um apaixonado pela vida, um sonhador, um simples figurante de um mundo completamente maluco, na busca de uma explicação pra tudo isso que nos cerca. O Clube da Esquina é um formador de caráter, é uma aula de música e de cidadania. E, claro, de bom gosto. É uma beleza musical que até dói de tão bonita, é uma jornada emocionada e comovente pela alma brasileira. Pra mim, é um dos bons motivos pra se estar vivo. Ter esse disco na cabeça e no coração é uma glória.

Milton Nascimento era um visionário. Um músico completo, dono de uma sagacidade de compositor que é inigualável até hoje. O Clube da Esquina é um de seus discos fundamentais. Junto com Lô Borges, ele traduziu os sentimentos de uma geração que era acostumada a sentir medo e a ficar calada. E que agora não precisava mais sofrer, amar, sonhar e viver em silêncio.

Caso você não conheça essa pérola e se nossa opinião por aqui já valeu alguma coisa até agora, dedique alguns momentos para escutar esse disco livre de preconceitos. Milton é um gênio e fez muito mais do que a música favorita do Ayrton Senna. Faça o seguinte. Pegue seu fone, aumente bem o volume e escute esse som imaginando que ele foi todo gravado ao vivo, por essa turma aqui. Pense que está ouvindo um disco antigo dos Beatles ou do Pink Floyd. Encare como você encara os Mutantes ou os Novos Baianos. Sinta todas as nuances e todo o cuidado. Tente ouvir o que cada instrumento lhe diz ali. Se você não tem essa visão, eis uma ajudinha para sua percepção:

Aquilo era inesperado, era a cara da juventude se dando pra bater. E ganhando a briga, mostrando que a música brasileira ainda era a nossa maior riqueza. “Cravo e Canelaâ€, “Caisâ€, “Nada Será Como Antes†e tantas outras viraram clássicos, hinos da MPB. Trilhas sonoras da minha vida, da sua, da vida de todos os brasileiros.

A versatilidade do Clube – e a impressionante voz divina do gigante – fazia com que músicos do mundo inteiro ficassem de queixo caído. E caras como Pat Metheny, Herbie Hancock, Wayne Shorter, Sting – só pra falar alguns – têm o “Corner Club” como um de seus discos preferidos até hoje.

Assim como eles, milhares de outros corações foram conquistados pelo encantamento do álbum. Porque somos todos humanos, e sofremos, e rimos, e nos apaixonamos, e nos revoltamos, e adoramos quando alguém consegue expressar com uma nota de guitarra ou com um falsete tudo o que a gente sente.

E assim é o Clube da Esquina. Um disco histórico, simplesmente primordial. Um movimento ímpar, uma estética única, um baluarte da democracia, um dos pontos de sustentação da cultura popular do nosso país, uma influência infindável para músicos de qualquer geração, referência universal de criatividade. Momento crucial da carreira de um gigante da nossa musica. Um marco para sempre.

Ave, Milton.

 
9 comentários
 
  • 1. Fernando Neumayer
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