Archive for November, 2010

 
Friday, 26 de November de 2010 | 11:29 - Por


Dá muita dó de ver o Rio de Janeiro – nossa maior fonte de belezas e o cartão postal eterno do Brasil – sendo refém de um bando de traficantes malditos. Em épocas de valores invertidos, de decadência e de desmoralização totais da cidade, eu fico muito triste de ver que o lugar onde meus pais nasceram (e onde vive toda a minha família) se transformou num palco de medo.

Este post é só um pequeno lamento e uma pequena homenagem ao Rio, a cidade que um dia já foi maravilhosa, e que eu torço para que volte a ser. Eu não sou carioca, mas sou brasileiro, e não vou ficar zombando da situação como se em São Paulo ou em Belo Horizonte – ou em qualquer outra cidade deste país – não houvesse violência.

Para torcer pela paz no Rio, eu gosto sempre de lembrar de um dos maiores gênios da história musical do nosso país, e um dos maiores cariocas da gema que se tem notícia. Tom, de onde você estiver, torça também pra que tudo isso acabe logo.

Rio, eu gosto de você.

 
 
Tuesday, 23 de November de 2010 | 10:43 - Por

Depois de shows impecáveis, emocionantes, históricos e devastadores como o que Paul McCartney fez aqui em SP, não restam muitas palavras a dizer.

Mas felizmente meu grande amigo Arthur Petrillo disse. E escreveu essa pérola que, segundo ele, “não é só mais um texto apaixonado”.

“Quando vier um sentimento, demonstre. Quando for o caso, “deixe o coração bater sem medo”. Eu acho que é isso que eu aprendi, ou ao menos vou aprimorar na minha vida depois de ter visto o Paul McCartney ao vivo no Morumbi na noite da vida de muitas pessoas. Agradeço aos meus pais que desde pequeno me mostraram o que mais tem de valor nesse mundo. Agradeço à minha “gatinha linda”. Agradeço aos meus amigos por estarem ao meu lado na vida. Agradeço ao Paul pela evolução, desprendimento, pelas palavras e pelo carinho que ele tem quando damos o play e ele entra nos nossos dias. Um herói feito de carne e osso, que se apaixona, que ama e que também cai.

O que eu vi ontem foi luz que se refletiu nos olhos de todo mundo. A minha gatinha Linda, o meu amigo George, o meu amigo John. Precisa de mais? Sim. Precisa de todo o mundo para existir um Paul. E eu estive lá: ouvindo, cantando, dançando e chorando na medida certa para fazer um espectáculo desta grandiosidade. Obrigado a todos que como ele me fazem acreditar que existem pessoas de verdade no mundo. ”

 
 
Thursday, 18 de November de 2010 | 16:13 - Por


Muito obrigado a todos pela participação.
Sei que pedir pra criar uma história não é comum, e agradeço super as ótimas histórinhas que apareceram aqui. Espero que quem visitou o blog tenha gostado também. Mas vamos ao vencedor – que é só um.

Praticamente empatado com outras 2 histórias, quem leva um par de ingressos pro Planeta Terra Festival 2010 é o Celso Bessa (@CelsoBessa).

O cara começa a história já dentro de uma puta viagem e ainda coloca uma situação ainda mais absurda dentro dela. Parabéns!

(Celso, te mandei uma mensagem no email que você usou para comentar com as informações para retirar os ingressos.)

A história do Celso é essa aí de baixo. Obrigado e até sábado.

David Bowie e eu, na ante-sala da Oprah, aguardando nossa vez de entrar no palco, para um bate papo sobre o filme que ele e eu protagonizamos: Brasil para Inglês Ver. Os 6 meses de filmagem da comédia musical brazuca-britânica nos permitiu criar uma amizade e ensinar dezenas palavrões e bordões em português ao ídolo inglês. Ocasionalmente, em “flashs ao vivo”, a câmera dos bastidores mostrava-nos enquanto esperávamos nossa vez e Oprah nos fazia algumas perguntas. Infelizmente, num desses “flashs ao vivo dos bastidores” pegou eu e Bowie imitando maridos machistas brasileiros e gritando, com sotaque britânico e tudo: “Fem logo aqui, mulierr, e fêcha esta porta do cara¨ho!”. Ao perceber que gritamos car*lho em rede nacional americana, Bowie e eu rolamos no chão rindo, acabando com toda a reputação de sua carreira e o fiasco nas bilheterias do filme.

Mas tudo bem. Agora, Eu e Bowie cantamos sucessos do Rock Pop e MPB, banquinho, teclado e violão, terças na Vila Madalena em São Paulo, quintas na Lapa, no Rio, e aos fins de semana em qualquer boteco ou clubinho que pague-nos a cerveja.

 
 
Tuesday, 16 de November de 2010 | 12:09 - Por


Todo gênio tem uma obra-chave no portfólio: Michelangelo tem a capela Sistina; Van Gogh tem a “Noite Estrelada”; Salinger tem “O Apanhador no Campo de Centeio”. E Sonny Rollins tem o álbum “The Bridge”.

E para entender o significado e a importância desse trabalho, é preciso conhecer a história por trás da concepção. Sonny Rollins, saxofonista (tenor e soprano), é um dos poucos músicos da história do Jazz que teve uma ascensão imediata: começou com 23 anos de idade e apenas 5 anos depois já havia gravado 20 álbuns!

Muita fama, muito glamour e muito stress para um sujeito tão novo.

E, em 1958, por conta de toda a pressão, ele desapareceu. Ninguém entendia a razão. Ninguém sabia onde ele estava. Ninguém o encontrava em casa.

Até que, para surpresa de todos, três anos depois ele retorna com esse trabalho: sendo apontado até hoje pelos maiores criticos, como uma obra fundamental para a história e desenvolvimento do Jazz. Mas fica a pergunta: o que Sonny Rollins fez durante esse hiato?

A resposta: cansado da fama, ele decidiu dar uma oportunidade para si mesmo e se concentrar na música, deixando o sucesso de lado. A idéia era estudar e aperfeiçoar sua técnica as últimas consequências. Mas o pequeno apartamento em Lower East Side não dava conforto e espaço suficiente para isso. Além de uma vizinha grávida, que sempre reclamava quando escutava o som do instrumento. Tudo isso obrigou Sonny a sair de casa e procurar um local sigiloso, com boa acústica e longe de espectadores. E ele encontrou: a Williamsburg Bridge.

E durante todo esse tempo, Rollins ia diariamente até a ponte, tirava o sax do case e buscava a inspiração necessária para encontrar seu caminho. E funcionou. O álbum “The Bridge” é a prova disso. Aliás, o nome do disco é uma homenagem a esse lugar tão especial, que acolheu um dos maiores gênios da música. A Inkblot Magazine rotulou esse trabalho como “um dos maiores discos de um dos maiores músicos do Jazz”. E eu assino em baixo.

Então, agora você já sabe: quando for a New York e passar pela Williamsburg, jogue flores e grite em voz alta: obrigado, sua linda!

 
 
Friday, 12 de November de 2010 | 18:01 - Por


Então meus amigos. Até agora esse assunto esteve ausente por aqui. Mas sim, sou um dos embaixadores do Planeta Terra Festival 2010. Três semanas atrás fui lá nos Headquarters do Terra para um Happy Hour que contava todo o projeto e as novidades pra esse ano.

Fiz um post lá no Brainstorm #9 explicando o que vi, já que estava representando o Yassuda por lá também.

Blah blah blah! Let’s cut the crap!

O Planeta Terra é um festival fodão, que vai trazer um monte de bandas incriveis, e que já está mega esgotado. Então, se quiser um ingresso, essa é provavelmente uma das suas ultimas chances de conseguir.

3 semanas atrás, fiz um busão super legal lá no site, e contando com você leitor para me seguir e irmos juntos pro show. Perdi feio no número de seguidores.
Então quando você quiser participar da promoção que eu vou contar abaixo, ajuste seu karma e pense bem se você merece isso ou não. HA!

O A Day in the Life é um ambiente para quem tem trilha sonora na vida. É para pessoas que piram nas histórias das bandas, músicas e discos. É para você que sonha em ser amigo do seu idolo, sentar numa mesa de bar e beber com ele.

Para ganhar um par de ingressos para o Planeta Terra Festival 2010 você precisa:

Contar uma história que rolou entre seu idolo e você.

Não importa se ele está vivo ou morto, se é possível ou não, se é mentira ou não. Conte a história como se ela tivesse mesmo acontecido.

Vale tudo. Desde você ser escolhido para virar o baterista da banda do cara, ficar amigo da filha do cara, fazer tour com a banda, traze-lo para sua festa de aniversário, conto erótico com a cantora ou qualquer devaneio que você queira pirar. A história tem que ser legal. Lembrando que você precisa me impressionar e não me chocar.

Sei que não é talento de todos contar histórias. Redação, gramática e outras técnicas não serão avaliadas. O lance é ter uma boa idéia, algo bem impossível mesmo. Algo que você consiguisse realmente imaginar se visse em algum lugar.

O texto deve ser postado nos comentários deste post e deve ter no máximo 15 linhas. Se sua história for boa em um linha só, melhor ainda.

Caso você queira muito mesmo esses ingressos e decida fazer um video, animação, ilustração, montagem ou qualquer outro jeito para contar sua história, fique a vontade. Caso queira mandar um ipad de presente com a sua história dentro dele, suas chances de ganhar aumentam. haha.

A história que eu mais gostar, leva um par de ingressos que devem ser retirados comigo mesmo. Inspire-se em historias de filmes, sonhos e o que mais lhe ajudar.

O show rola no sábado, 20 de novembro.
Os ingressos precisam ser retirados comigo na 6a feira, dia 19 de novembro.
O vencedor será informado aqui no blog na 5a feira, dia 18 de novembro.

 
 
Friday, 12 de November de 2010 | 10:33 - Por

Eu publicamente cutuquei o Billy para que ele dividisse com a gente o olhar dele sobre A Change is Gonna Come. Olha só no que deu. Obrigado Maestro.

Você acorda atrasado, corre, toma qualquer coisa que se pareça com um café, coloca qualquer roupa, sai correndo, rala a bunda que nem um condenado o dia inteiro, só toma esporro do chefe, fica que nem o “Urso do Pica-Pau” de um lado pro outro o dia inteiro, enfrenta todo e qualquer tipo de humilhação das 9 da manhã até as 9 da noite, chega em casa cansado, ainda tem mais um monte de coisas pra fazer, sente que seu dia não serviu pra nada, você percebe que não fez nada de interessante pra humanidade (menos ainda só pra você) e, quando deita, lembra/percebe que amanhã vai acontecer tudo isso de novo.

Algumas pessoas nessa situação pegam em armas, outras saem por aí quebrando tudo, outras ainda fazem passeata com uma boina na cabeça e alguns broches na jaqueta militar, outras simplesmente se revoltam e cortam o cabelo careca ou fazem qualquer outra estupidez pra mostrar pro mundo que a vida não é fácil.

Isso é para os fracos.

Seus problemas não são NADA perto do que você está prestes a ouvir/sentir/entender.

Quem tem o dom OU tem a visão faz outra coisa.

Melhor ainda, quem tem o dom E tem a visão faz uma música.

Mesmo sabendo que aquilo tudo que ele diz na letra não vai acontecer com ele ou com o filho dele.

Com vocês Sam CookeA Change is Gonna Come.

Não existem mais palavras pra dizer o que tá dito aí.

Segue a letra. Imagine você, negro, nos EUA em 1964, auge do racismo.

I was born by the river in a little tent

Oh and just like the river I’ve been running ever since 

It’s been a long, a long time coming 

But I know a change gonna come, oh yes it will



It’s been too hard living but I’m afraid to die 

Cause I don’t know what’s up there beyond the sky 

It’s been a long, a long time coming 

But I know a change gonna come, oh yes it will 



I go to the movie and
I go downtown somebody keep telling me don’t hang around 

It’s been a long, a long time coming

But I know a change gonna come, oh yes it will 



Then I go to my brother

And I say brother help me please 

But he winds up knockin’ me 

Back down on my knees


Ohhhhhhhhh….. 



There been times that I thought
I couldn’t last for long

But now I think I’m able to carry on

It’s been a long, a long time coming 

But I know a change gonna come, oh yes it will

Dá vontade de ouvir sem parar e sem parar e sem parar e sem parar. Falar sobre um assunto com propriedade faz desse assunto algo muito mais profundo do que o simples “falar sobre”.

Já chorei e vi muita gente de olho vermelho depois de ouvir essa música, não estranhe se isso aconteceu com você.

Por isso que pra mim essa é uma das 3 letras/músicas mais sensacional de todos os tempos.

Não adianta procurar as versões de outros artistas pra mesma música. Nem perca seu tempo.

Mesmo.

As outras duas letras/músicas mais sensacionais de todos os tempos (IMHO) e que representam uma situação claramente identificável pela música são “Funeral de Siegfried” de Richard Wagner e “Verão” de Vivaldi.

Funeral de Siegfried (se algum dia vc for ao Grand Canyon é a trilha sonora perfeita):

Vivaldi – Verão (perca um dia sentado numa praia, de preferencia num fim de tarde obviamente no Verão, pra ouvir essa música)

Dois instrumentais.
Sem mais,

Billy.

PS 1) Eu juro que ia fazer algo mais elaborado e espetacular prá colocar aqui no A Day in the Life, mas o Zannin já explicou lindamente sobre essa música nesse post aqui. Como ele mesmo disse “Da vontade de escutar de novo e da vontade de nunca escutar mais nada.”

PS 2) Obrigado ao meu pai, Sr. Helio, e minha mãe, Dna, Maria Helena, por me mostrarem e me explicarem o quanto a música é algo sensacional e o quão legal é trabalhar com o que a gente gosta. Muito bom ter pais assim, faz uma vida ter sentido.

 
 
Tuesday, 09 de November de 2010 | 9:46 - Por

E mais uma vez a programação HD da TV me apresenta coisas boas. Tava ali de bobeira no meio da minha mudança e fui obrigado a parar na VH1 quando vi mega gata cantando muito e dominando uma Flying V.

Grace Potter tem 27 anos. E é naquela pegada real life que eu tanto valorizo. Largou a faculdade no 2o ano e foi fazer o que acreditava que tinha que fazer.

Ela e sua banda tem 3 álbuns de estúdio, sendo que o mais recente, lançado esse ano traz um som menos southern, mais hard rock e a fez estourar – junto com a versão genial de White Rabbit do Jefferson Airplane para a trilha de Alice do Tim Burton.

O show que estava passando na TV tinha um repertório bem amplo, passando até por músicas que ela fez antes de montar a banda. Eu sou enlouquecido por vocais femininos e Treat me Right me pegou instantaneamente. Dali pra frente foram só boas surpresas. Grace é camaleoa e o som também é. Uma mistureba de Norah Jones, Janis Joplin, Susan Tedeschi e Chan Marshall (Cat Power).

Olha só o que eu to falando.

Ela impressiona demais. Nos trabalhos anteriores ela passeia entre folk, southern rock, blues e rock como uma veterana. Ao ouvir todos os discos a impressão é que ela entende do riscado, trabalhou muito para arrumar um lugarzinho, fez turnê com Black Crowes e Gov’t Mule e no final das contas montou um disco mais moderno para segurar o posto que conquistou. Só que não se engane, o disco é mais moderninho mas é muito mais rock n roll que o que escutamos por aí e fácil que eu me divertiria master se tocasse Paris no CB ou em qualquer outro club de rock.

Por sinal, Paris é um capítulo a parte. O clipe é lindo, a música é genial, a banda é fodona e a Grace…

Ahhh pela Grace você se apaixona agora:

 
 
Friday, 05 de November de 2010 | 11:41 - Por

Escrever sobre um disco como o Clube da Esquina não é tarefa fácil. Primeiro porque muito – ou tudo – já foi dito sobre ele, afinal, é um dos mais clássicos e conhecidos discos brasileiros de todos os tempos, tendo influenciado gerações no mundo inteiro desde seu lançamento, em 1972. Segundo, porque ele tem um valor sentimental tão grande, mas tão grande pra mim que fica complicado fazer qualquer análise ou comentário sem ser totalmente passional ou imparcial.

Pra me ajudar a descrever o que significa ouvir e se apaixonar por essa obra-prima da música mineira, chamei o Zannin pra dividir este post comigo. Assim como fiz com ele há quase três anos, sempre que posso eu presenteio um grande amigo com o Clube da Esquina. Amigos que amam música são praticamente a materia-prima desse disco e eu, na função de fã, me sinto na obrigação de compartilhar (com quem ainda não conhece) esta pérola maxima da cultura brasileira.

Não me lembro quando ouvi o Clube pela primeira vez. Só lembro de ter ficado sem reação depois que o CD terminou. E lembro de ter colocado pra repetir logo em seguida. E pra repetir logo em seguida. E pra repetir logo em seguida. Tive que escutar umas 5 vezes seguidas pra conseguir recuperar a consciência e o ar que me faltavam. O baque inicial é grande, o disco é duplo e complexo. Não dá, mesmo, pra absorver tudo na primeira audição.

E essa é justamente uma das maiores magias do Clube Da Esquina. Cada vez que você escuta, você descobre uma coisa nova, um detalhe novo, uma camada nova que você ainda não tinha absorvido. E a cada nova audição, seu coração fica mais rendido à beleza quase violenta de cada uma das 21 faixas. E você entende que a música brasileira nos anos 70 não era, de fato, um mero exercício de protesto ou de contravenção às normas estipuladas pelos militares.

Claro, havia – sim – o protesto e toda a alfinetada na ditadura. Mas o Clube da Esquina era, também, uma vitrine de musicalidade como nenhum outro disco brasileiro – desde os tempos de Tom Jobim – tinha sido até então. Fruto de uma amizade quase interiorana de jovens que viviam na turbulenta Belo Horizonte dos anos 60 e 70, o “Clube” era o apelido carinhoso que ganhavam os encontros de moleques humildes num boteco na esquina das ruas Paraisópolis com Divinópolis, no bairro de Santa Tereza, na capital Mineira. Eles se juntavam lá com seus violões a tiracolo e criavam, madrugada adentro, melodias e letras carregadas de emoção, de lirismo, de criatividade musical e – principalmente e acima de tudo – MUITA sinceridade.

Milton Nascimento – recém transformado em celebridade alguns anos antes, depois de ficar em 2o lugar no Festival Internacional da Canção em 1967 com Travessia – era o líder dessa turma que só tinha um ideal em comum: o da liberdade de expressão através de suas idéias mágicas. O que aqueles jovens faziam era transformar amizade, amor, ódio, receios, esperanças, sonhos e todos os tipos de sentimento, em música. E em música sólida, música como poucos músicos fora do circuito bossanovista jamais haviam tido a petulância de construir.

Entenda que o termo “petulância”, aqui, é usado no melhor dos sentidos. E eu agradeço a eles essa petulância. Essa cara-de-pau, essa vontade de mostrar ao mundo o que havia dentro de suas cabeças e corações. Graças a ela, eles conquistaram o mundo. O Clube da Esquina, o disco, é até hoje aclamado por músicos do mundo inteiro como referência de criatividade, de beleza, de técnica e de genialidade musicais. Isso porque o disco não tem um rótulo. Ele não é jazz, ele não é samba, ele não é MPB, ele não é rock. Contudo, ele consegue ser tudo isso ao mesmo tempo, de um jeito tão único que seu estilo só pode ser rotulato pelo próprio nome. E é essa versatilidade que conquistou os músicos do mundo todo: seu experimentalismo reinventa os maneirismos de cada estilo musical de um jeito unicamente brasileiro. Músicas como Cravo e Canela, Cais e Trem Azul eram tão inovadoras e tão brasileiras sem ser uma bossa nova ou um samba-enredo, que isso acabou chamando a atenção de quem procurava uma novidade pra escutar. E é dessa química entre o tropical e o universal que nasce o encantamento, e esse é um dos maiores méritos desse disco que foi tão controverso em seus próprios dias.

Ora, como assim um bando de moleques se atrevia a fazer música tão esquisita e tão pretensiosa, pensavam os críticos da época. Como podia, no auge do regime militar, no auge do movimento tropicalista, no auge da força do AI-5, no auge do “milagre econômico”, no auge da intelectualização camuflada da juventude brasileira, um grupo de mineiros sem ter onde cair mortos fazer um album duplo que ia na contramão desse motim todo? Claro, o disco era engajado, mas de uma outra maneira. Eles hasteavam bandeira branca enquanto todo o resto do mundo se engalfinhava avenidas afora. E assim, era possível passar 3 minutos descrevendo Um Girassol da Cor de Seu Cabelo ou uma Paisagem na Janela e tentando fazer com que as pessoas relembrassem que a vida era muito mais do que politica.

E se fosse pra falar de política, a coisa era tratada com os menos óbvios meandros que se tem notícia. Dos cruces, Saídas e Bandeiras, Os Povos e Clube da Esquina no 2 misturam o contexto da época com outros momentos históricos do Brasil e do mundo, e plantam a semente da intelectualidade no ouvinte de um jeito muito mais mágico do que a mera contravenção. E o mais legal é que tudo faz muito sentido ainda agora, e por isso mesmo o album vence a barreira do tempo e ganha força a cada ano que passa. É atual como se tivesse sido escrito hoje.

Mas talvez não seja pela política que você vai ser pego pelo Clube. Eu (Zannin) fui pego mesmo, de verdade, ali na quinta música. Nuvem Cigana é o mais suave grito de amor que alguém pode soltar. A música é absurdamente arranjada com dinâmica crescente e envolvente, como uma paixão dessas acontece. O inicio calmo, cheio de promessas, se enchendo dentro do peito e criando coragem para no auge esquecer de tudo e pedir para que ela o acompanhe. Um duelo que o lado emoção do cerebro venceu. E como pensar que eles estavam fazendo isso lá no miolinho de Minas Gerais enquanto os Beatles faziam tudo aquilo lá na terra da Rainha? Enfim, a música termina em fade out, pois o pedido não termina. “Se você deixar o coração bater sem medo” ecoa reticente na sua cabeça, muito provavelmente até o final da 21a música que encerra a jornada.

Não é à toa que o disco, vira e mexe, figura entre os mais importantes de todos os tempos das listas que correm pelas revistas e publicações especializadas. Quem se deixa influenciar por sua magia não volta mais ao normal. Seja você um músico, um apaixonado pela vida, um sonhador, um simples figurante de um mundo completamente maluco, na busca de uma explicação pra tudo isso que nos cerca. O Clube da Esquina é um formador de caráter, é uma aula de música e de cidadania. E, claro, de bom gosto. É uma beleza musical que até dói de tão bonita, é uma jornada emocionada e comovente pela alma brasileira. Pra mim, é um dos bons motivos pra se estar vivo. Ter esse disco na cabeça e no coração é uma glória.

Milton Nascimento era um visionário. Um músico completo, dono de uma sagacidade de compositor que é inigualável até hoje. O Clube da Esquina é um de seus discos fundamentais. Junto com Lô Borges, ele traduziu os sentimentos de uma geração que era acostumada a sentir medo e a ficar calada. E que agora não precisava mais sofrer, amar, sonhar e viver em silêncio.

Caso você não conheça essa pérola e se nossa opinião por aqui já valeu alguma coisa até agora, dedique alguns momentos para escutar esse disco livre de preconceitos. Milton é um gênio e fez muito mais do que a música favorita do Ayrton Senna. Faça o seguinte. Pegue seu fone, aumente bem o volume e escute esse som imaginando que ele foi todo gravado ao vivo, por essa turma aqui. Pense que está ouvindo um disco antigo dos Beatles ou do Pink Floyd. Encare como você encara os Mutantes ou os Novos Baianos. Sinta todas as nuances e todo o cuidado. Tente ouvir o que cada instrumento lhe diz ali. Se você não tem essa visão, eis uma ajudinha para sua percepção:

Aquilo era inesperado, era a cara da juventude se dando pra bater. E ganhando a briga, mostrando que a música brasileira ainda era a nossa maior riqueza. “Cravo e Canela”, “Cais”, “Nada Será Como Antes” e tantas outras viraram clássicos, hinos da MPB. Trilhas sonoras da minha vida, da sua, da vida de todos os brasileiros.

A versatilidade do Clube – e a impressionante voz divina do gigante – fazia com que músicos do mundo inteiro ficassem de queixo caído. E caras como Pat Metheny, Herbie Hancock, Wayne Shorter, Sting – só pra falar alguns – têm o “Corner Club” como um de seus discos preferidos até hoje.

Assim como eles, milhares de outros corações foram conquistados pelo encantamento do álbum. Porque somos todos humanos, e sofremos, e rimos, e nos apaixonamos, e nos revoltamos, e adoramos quando alguém consegue expressar com uma nota de guitarra ou com um falsete tudo o que a gente sente.

E assim é o Clube da Esquina. Um disco histórico, simplesmente primordial. Um movimento ímpar, uma estética única, um baluarte da democracia, um dos pontos de sustentação da cultura popular do nosso país, uma influência infindável para músicos de qualquer geração, referência universal de criatividade. Momento crucial da carreira de um gigante da nossa musica. Um marco para sempre.

Ave, Milton.

 
 
Wednesday, 03 de November de 2010 | 15:35 - Por


Quando você escuta um CD de um artista/banda que você gosta, o que vem à sua cabeça?

Bom, se você for músico, provavelmente lhe virão pensamentos como “que animal este solo de guitarra na música tal” ou “como a voz dela está foda aqui” ou “que incrível essa linha de baixo”, e coisas do tipo.

Se você não for músico, provavelmente você pensa coisas como “adorei essa música”, “essa é a que toca na radio”, “comprei/baixei o album por causa dessa” , “essa é perfeita pra ouvir no carro”, e assim por diante.

Seja como for, você acaba prestando atenção em coisas relacionadas ao artista e às músicas.

Mas uma das características mais legais – e mais importantes – de um disco é o seu produtor.

É o cara que vai dar uma “cara” pro som, é o cara que vai trazer uma identidade praquelas músicas soltas, é o cara que vai fazer o baixo soar do jeito que você adora ouvir, é o cara que vai pensar no efeito certo pra voz no momento exato da música que te emociona. É o cara que vai dar o peso que sua banda preferida merece, ou a leveza que aquele violao precisa pra soar cristalino no seu fone de ouvido.

E hoje eu queria homenagear um dos produtores mais competentes da minha geração. Um geninho chamado Nigel Godrich.

Gosta de Radiohead? Ele que produz. Aliás, ele já foi até chamado de “o sexto integrante” da banda, já que ele é o responsável pelo som característico da banda.

Gosta de Paul McCartney? Pois foi o Nigel Godrich que produziu o Chaos & Creation In The Backyard, um dos melhores e mais criativos trabalhos do Paul em toda a sua carreira.

Gosta de REM? Nigel também está na ficha técnica dos discos dos caras.

E a lista não pára. Se for importante pra você, o curriculo do cara inclui Travis, Beck, Pavement, U2, Air… e por aí vai. Quando você for escutar o proximo album no seu iPod, tente decifrar o papel do produtor. Fica muito mais divertido.

Aqui você vê ninguém mais ninguém menos que Paul McCartney explicando como ele escolheu Nigel para trabalhar com ele. Taí um cara com moral.

 
Categorias/Tags: 00's, , , , , ,
 
 
 
Arquivo por Data

May 2012

March 2012

January 2012

November 2011

October 2011

September 2011

August 2011

July 2011

June 2011

May 2011

April 2011

March 2011

February 2011

January 2011

December 2010

November 2010

October 2010

September 2010

August 2010

July 2010

June 2010

May 2010

April 2010

March 2010

February 2010

December 2009

November 2009

Categorias Principais
50’s    60’s    70’s    rock    pop    blues    jazz    novidades    reviews