É. Da mesma forma que Mike começa o texto dele, começo o meu.
Nunca imaginei que fosse escrever o que vou escrever. Mike Portnoy, baterista, fundador e compositor do Dream Theater está deixando a banda. No mesmo dia que a possibilidade de ver um dos meus artistas favoritos dessa vida aparece, a possibilidade de ver a outra banda favorita da vida, acaba.
Não sei se vocês tem uma relação forte com alguma banda. Eu, particularmente, tenho um link quase que sobrenatural com 3 trabalhos musicais: Beatles, John Coltrane e Dream Theater. Coltrane se foi jovem, mas deixou uma vida de trabalhos a serem digeridos. Os Beatles acabaram, mas Paul e Ringo ainda passeiam por aÃ. Com o Dream Theater o papo é diferente. Eles estão por aqui, e os và esse ano, em março.
Me lembro de escutar em 1994 a virada inicial da bateria de 6:00, música que abre o Awake, ecoando pela porta do quarto do meu irmão mais velho. Lembro claramente de ter sido fisgado por aquele som. Me lembro de afanar na cara dura o cd do meu irmão. Lembro de ter levado ele no meu discman por MUITO tempo. Lembro de cada nota dele até hoje.
Dream Theater foi a primeira banda que eu realmente virei fã. Foi a banda que me fez pirar em rock. Foi graças ao DT que eu fui atrás de quem já tinha feito discos temáticos, e então me dediquei a conhecer The Who de verdade e mais tarde Yes. Foi por causa desse baterista aà que o Hugo e o Alika, meus amigos do colégio, começaram a estudar bateria. O Hugo, virou baterista da minha primeira (e moribundamente ativa) banda.
Em 1999 eu conheci um dos 10 discos que levaria pra Lua caso tivesse que ir pra lá um dia e caso eu pudesse só levar 10 discos pra escutar. Scenes from a Memory mudou tudo o que eu achava que conhecia de música até 1999. Sério, vocês não imaginam o que foi e é esse disco pra mim. Sei (sem nem acompanhar ouvindo) cada solo de cada instrumento. Tudo na cabeça, quase que tatuado na minha memória.
Entre 2000 e 2004 mais ou menos, não acompanhei a banda. Graças a uma amiga, voltei a ouvir e retomei o tempo perdido. Conheci o Six Degrees of Inner Turbulence, provavelmente um dos discos mais fodas que eu já escutei.
Não vai adiantar nem tentar falar de cada um dos discos e de suas relações. Não vai adiantar tentar explicar o que é ser fã dessa banda (os fãs de DT sabem do que eu to falando). Não vai adiantar explicar pra vocês o que foi ver 3 shows desses caras aqui em SP.
É com esse tom já saudosista que eu digo que Mike Portnoy, o coração e alma do DT resolveu parar. Em sua carta ao público ele diz que projetos novos o tem deixado mais feliz, e que depois de 25 anos de banda (banda que seu pai deu a ideia do nome) ele resolveu parar. Diz também que seu respeito, amor e admiração pela banda, pelas músicas, pelos integrantes e pelos fãs nunca vão acabar.
Enfim. A banda continua. Mas não pra mim. Posso vir a gostar de um novo DT, mas nunca mais vai ser o DT que explodiu minha cabeça em 1994 e terminou de explodir agora em 2010.
O que mais me atraiu no DT nunca foi o vocal do LaBrie ou os solos do Petrucci. Meu lance com a banda é que ela sempre foi incrivelmente verdadeira. O peso da jornada de tantos anos já serviu de inspiração para músicas e também para quase finais da banda. Nunca achei que justamente nosso bravo lÃder, que ao invés de puxar, empurrava a banda sentado no fundo do palco, fosse o cara que ia levantar o acampamento.
Nem vou entrar nos méritos de discutir se a escolha dele é certa ou errada, se os outros integrantes foram ou não egotistas. O que importa pra mim é que isso aconteceu. Aconteceu hoje, dia 8 de setembro de 2010. E lamento muito ter que escrever disso aqui, que desde o começo do ano tem sido uma caixa de boas recordações digitais. Infelizmente sou obrigado a incluir esse capitulo.
Lamentando profundamente o final de uma era na minha vida, termino meu texto triste de verdade, e também usando o final do texto do Mike:
“Move on be brave, don’t weep at my grave, because I am no longer here…
But please never let your memory of me disappear…”
The Spirit Carries On
Silêncio.
