Depois da genial contribuição do LG e do Piccinini, e depois do leitor João (com seu texto brilhante), também recebi um email de um grande amigo falando sobre esse show que gerou tantos comentários e corações inflamados de emoção. Que dia pro A Day!
Publico aqui o email genial que recebi do grande amigo Fabio Barbanti.
“Embalado pela recente onda de posts em homenagem ao fantástico show que The Swell Season nos proporcionou na última sexta, resolvi dar a minha modesta contribuição ao seu blog musical.
Conheci a obra de Glen Hansard um pouco antes do artista estourar com o filme já mencionado. Em um de meus garimpos musicais, esbarrei em uma canção chamada Fitzcarraldo da banda The Frames, liderada pelo mesmo. Como é de costume quando me deparo com uma música que captura a minha atenção, corri atrás de tudo o que a mesma já tinha feito desde seu nascimento. E não é preciso ter aguçados poderes de dedução para concluir que, em pouco tempo, estava viciado no conjunto.
É claro que, como todos que já deram seu depoimento sobre o show de sexta, fui fisgado pela simplicidade e honestidade impressa em cada quadro de Once. Principalmente pelo carisma de Glen e a timidez comovente de Marketa. E é claro que me transformei em fã da banda que se originou desta empreitada.
Mas nada podia me preparar para o que me esperava nesta sexta. Na minha humilde experiência como espectador de espetáculos musicais, são poucos os shows que conseguem me surpreender. A grande maioria não passa de um registro ao vivo das músicas que ganharam o gosto popular. O artista entra, cumprimenta o público, faz o seu trabalho e se despede com muito profissionalismo. Não que haja algo de errado com isso, mas depois de um tempo, você anseia por algo que saia da curva da mediocridade.
Algo como o protagonista do espetáculo entrando no palco, sem dizer absolutamente nada, portando apenas um sorriso na boca e seu violão esburacado e cantando em tom de súplica uma oração rogando por um sinal divino. Tudo sem microfone, mas com uma força tão intensa que rever esta cena no vÃdeo postado pelo Zannin fez com que o pelos de minha nuca se arrepiassem de emoção.
Até mesmo quando se arriscavam a falar português, não se restringiam ao usuais “Obrigado†ou “boa noite†que já viraram chavões de artistas internacionais que põem os pé em terras tupiniquins. Eles se apresentavam, anunciavam o nome de suas músicas e até agradeciam ao público num nÃtido esforço para agradar sua platéia. “Vocês são fodaâ€, urrou no final Glen Hansard. Mal sabe ele que, nesse exato momento, era exatamente essa a frase que passava pela minha cabeça.
E quando o assunto era a irreverência, outro fator que separa o artista de estúdio daquele que se destaca em uma apresentação ao vivo, Glen era imprevisÃvel. Ele brincava com a platéia, elaborava sambas de improviso homenageando os motoqueiros de São Paulo, convidava o espectador para participar de um heavy metal composto pelo guitarrista quando tinha 8 anos de idade e até apresentava suas músicas de forma inusitada. Ao introduzir a canção Lies, suas palavras foram “This is a song about a person that speaks the truth about things that didn’t happenâ€. Brilhante.
Marketa era mais reservada, mas esbanjava meiguice. Seja na forma retraÃda como se dirigia ao público ou na precisão cirúrgica como interpretava cada canção, era impossÃvel não ficar hipnotizado por sua voz impecável ou por seu olhar inocente. Sua interpretação de Cucurrucucu Paloma, de Caetano Veloso, foi estarrecedora. “We thougth it was Portuguese. It turns out it was Spanish. What do we know?â€, disse Glen em mais uma demonstração de bom humor e simpatia.
Mas, no final das contas, o que mais chamou a atenção nesse espetáculo – e essa palavra nunca se encaixou tão bem para descrever um evento – foi a contagiante paixão que os integrantes dessa banda deixam vazar por seus poros enquanto estão se apresentado. Canções que costumam durar 4 ou 5 minutos ganham proporções épicas no violão incansável de Hansard, transformando-as em epopéias musicais que transbordam sentimentos. No final, notava-se que a intensidade de sua apresentação fora tamanha que uma corda não resistiu e se partiu. Mas Hansard não se importou e continuou atacando o instrumento com enorme fome. O público ignorou o ocorrido e vibrou com a entrega de seu artista que levava ao pé da letra o termo “The show must go onâ€. E tudo terminou com uma contagiante e divertida apresentação unplugged de toda a banda, inclusive do grupo brasileiro Os Varandistas, que abriram o espetáculo.
The Swell Season então se despede e nos deixa com uma amarga herança. Afinal, poucos serão os grupos que conseguirão igualar o que ficou para sempre marcado na história (se não na de São Paulo, pelo menos na minha). “E a corda que arrebentouâ€, alguns podem estar se perguntando. Parafraseando as sábias palavras do saudoso Armando Nogueira, a corda se escondeu em um canto e se corroeu de remorso.”
