Segunda-feira. Começo de uma provável semana cheia. Pós-feriado e cheia de pendências. Não é fácil levantar da cama no frio e calçar seus sapatos. Mas imagine só o quanto não deve ser dÃficil calçar os sapatos todos os dias sabendo que você é o Paul McCartney. Acho que nunca vou conseguir chamá-lo de ex-Beatle por não acreditar que os Beatles realmente chegaram ao fim. Não chegaram né. O Rock Band tá aà para provar que ano após ano os Beatles se mantém vivos e presentes em nossas vidas.
Mas voltando aos sapatos do homem. Paul foi o cara que junto com Lennon subiram o sarrafo da música para uma altura um tanto complicada de se alcançar, mesmo 40 anos depois do dito fim da banda. Nem entro nos méritos sobre Paul ser melhor ou pior que Lennon. Acredito muito sobre a criatividade da dupla em fazer as canções mais significativas da história da música. Óbvio que não podemos esquecer do contexto, do momento, da competência e tudo mais.
Só que isso resulta em uma missão que atormenta praticamente qualquer criativo: se superar. Imagine que você e 3 amigos fizeram pouco mais do que 160 musicas em 8 anos e mudaram o jogo todo. Aà esse grupo chega ao fim, a vida retira 2 dos seus amigos de circulação, e o terceiro é meio maluquinho, arranca a sobrancelha dormindo e não cria lá muita coisa. Mas você, inquieto e curioso carrega o fardo da competência quase que sozinho por anos e anos, e não foge da briga. Lança discos variados, provocadores, criativos e justamente por ser a instituição que é, não se deixa abater por crÃticas e pela competição. Passa incólume e positivo por tudo e todos, e continua a nos surpreender.
Em 2005, depois do aclamado Flaming Pie, Paul volta a pensar num disco pessoal e intimista. Segue a recomendação do genial produtor dos Beatles, George Martin e chama Nigel Godrich, produtor modeno responsável por um dos grandes clássicos dos anos 2000 – OK Computer do Radiohead. Diferente do que pensamos sobre o produtor de um disco, esse cara não é aquele operador da mesa de som, cheia de botõezinhos que aparecem nos clipes. Um produtor sabe onde o disco deve chegar. Ele é o cara que avalia se está bom ou não tá, se precisa de mais músicas ou não, se o disco em si está coeso e se passa a mensagem conceitual da proposta. Por isso falo tanto sobre escutar discos inteiros e na ordem. É como assitir um filme pelo final, ou só ver cenas soltas. Não funciona. Em suma, esse cara bomba músicas de Paul McCartney se ele quiser. Esse cara pede pro Paul criar mais músicas se necessário.
Fundamental para o êxito do disco, considerado mais um pico criativo de Macca, Nigel cuidou para que o clima de todo o disco não saÃsse do trilho. Imagine que complicada é essa tarefa. Chegar ali e capitanear o trabalho autoral e principalmente pessoal de um dos maiores gênios da musica. O resultado são 13 músicas que te levam cuidadosamente para uma viagem a infância de Paul, desde a foto da capa do disco, clicada por Mike McCartney no jardim da casa da famÃlia, com um Paul ainda muito jovem tocando violão.
Musicalmente o disco é impecável. Letras, climas e arranjos incorrigÃveis. Começando com Fine Line, que descorre sobre os caminhos que escolhemos na vida. Sobre o que é realmente importante pra nós. Sobre nossas pobres prioridades. A segunda é How Kind Of You, uma linda constatação sobre gentileza, apoio e companheirismo, acompanhada de melodia e pianos fortes. A seguinte é Jenny Wren, sobre uma cantora que perdeu suas canções quando teve seu coração partido. Toda no violão, bem marcada, propositalmente como em Blackbird mas protegida por uma suave cortina de violinos.
At the Mercy, ou simplesmente sujeito as condições do que está por vir. Um balanço sobre um amor que pode-se ganhar ou do amor que pode-se perder. Tudo ali ao acaso, em meio aos nossos dias cheios de outros problemas. Curioso pensar que no ano seguinte ao disco Paul se separaria de Heather Mills. A quinta música é Friends to go, que não fala de delivery de amigos mas ao meu ver, sobre aquele casinho escondido que ninguém deve saber.
English Tea é o meio do album, e putz… como que o cara faz uma música dessas? É uma ode ao hábito dos ingleses e faz com que melodia e jogos de palavras ganhem um novo sentido. Simples e complexo ao mesmo tempo. Isso por sinal é uma das marcas da produção do disco. Tudo muito organizado e clean. Escuta-se tudo e a atmosfera de cada música é cuidadosamente apresentada para melhor degustação.
A seguinte, um das minhas favoritas é Too Much Rain, que basicamente te diz: não faça tempestade em copo d’água. Se quiser ter uma vida tranqüila, aprenda a rir. Certain Softness segue, e num clima latino, sexy, meio bolero, e de novo de uma forma muito simples, fala sobre os detalhes que nos fascinam. Quisera eu um dia escrever sobre a suavidade dos olhos de alguém com tanta maestria.
Riding to Vanity Fair é uma reflexão sobre amizade. Sobre a decepção com alguém. Sobre tentar esquecer e deixar para trás algo que você queria tanto. E focar em você mesmo, já que é o que lhe resta. A seguinte, Follow Me, continua sobre a solidão. Dessa vez se apoiando em alguém que você pode confiar, e que segura um cartaz dizendo “me siga”. (Desculpa, mas não é sobre o twitter).
O post vai ficando grande, mas é injusto descartar algumas canções em prol do ritmo do texto. Tenho que falar de todas mesmo. Ainda bem que está no final, que normalmente traz coisa boa né.
Promise To You Girl, é uma música mais rapidinha, alegre e com todo o astral vindo do piano. Solinhos de guitarra e backing vocals que te fazem querer terminar esse disco e colocar o Let it Be pra tocar. Essa é outra bela canção que fala sobre olhar pro passado e analisar seus planos. Ele prometeu pra aquela garota que juntos eles iriam mudar um monte de coisas.
As duas finais do disco This Never Happened Before e Anyway. A primeira já traz um quê de fim de disco, mais lenta e conclusiva. Fala sobre essa coisa que nunca aconteceu antes, o amor, que devia ser assim mesmo, que não tem graça ficar só. Genial. A última, Anyway é uma bela balada saudade. Não importa mais nada. “If you love me, won’t you call me”.
Pra quem não conhece a carreira solo do Paul, tá aà um ‘must have’. Lembro do dia que o Cotta me apresentou esse disco. Inclusive me mostrou essa brincadeira com o nome do Paul que está tanto no label do cd como na sleve da edição especial.
Quando ele sugeriu o álbum, eu estava na febre do Memory Almost Full que acabava de ser lançado em 2007. Infelizmente não tinha me dado ao trabalho de conhecer os discos solos do cara. Tem muita coisa foda. E ainda tem gente que acha que o ele está morto. haha.
Vamos fazer assim então. Escute English Tea e Promise To You Girl nos playerzinhos abaixo:
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E veja (mesmo) o imperdÃvel Chaos and Creation at Abbey Road em 7 partes do youtube nos links:
1/7 http://www.youtube.com/watch?v=4xw9UB_8E_M
2/7 http://www.youtube.com/watch?v=SbvzXjK0J0U
3/7 http://www.youtube.com/watch?v=wnXAmcx301M
4/7 http://www.youtube.com/watch?v=-IRNQMHETE4
5/7 http://www.youtube.com/watch?v=_oZqEiRKV5E
6/7 http://www.youtube.com/watch?v=Ndm4T4LY8KY
7/7 http://www.youtube.com/watch?v=vRq1JtvaG78
Uma boa semana para você.
