Monday, 17 de May de 2010 | 23:25 - Por

Em 2001, a banda que conquistara o Brasil dois anos antes com o hit teen “Anna Julia” dava sua principal guinada na identidade e lançava um disco experimental, circense, criativo, divertido, melancólico, extremamente arriscado e ousado, e excepcional. Um disco chamado “O Bloco do Eu Sozinho”.

O “Bloco” é genial por muitos motivos. Primeiro porque foi um disco que mostrou os caras dando nenhuma – ou quase nenhuma – importância para o que a gravadora exigia e fazendo o que eles queriam. E eles queriam muito. E conseguiram. O disco já nasceu atemporal. Era uma explosão criativa. Idéia em cima de idéia, pérola atrás de pérola. Foi a válvula de escape que a vazão inventiva dos hermanos precisava para que eles se firmassem como A grande banda nova do cenário pop/rock brazuca.

Eles precisavam extravazar o acúmulo de invenções, de idéias novas, de rumos a seguir. E, assim, o Bloco é um grande repositório de pequenas genialidades (Cadê Teu Suin, Cher Antoine, Adeus Você, A Flor, etc). Tenso, efusivo, pulsante, revoltado e introspectivo ao mesmo tempo. Tudo acontecendo junto.

E o maior mérito do “Bloco”, além, claro, das próprias músicas, é ser o disco que abrigou toda a efervescência contida e deixou a mente dos caras novamente pronta para que novas idéias entrassem no lugar daquelas. Mas agora, sem a necessidade de provar nada pra ninguém e com a liberdade e o tempo que cada nova idéia genial precisa para tomar forma e amadurecer.

E então, Camelo, Amarante, Bruno e Barba realizaram seu maior feito com “Ventura”. Um disco que trazia toda a genialidade que eles já mostravam no Bloco, só que com mais foco, mais calma, mais definição e menos porralouquice. Não me entenda mal, eu adoro a porralouquice do Bloco, mas eu também adoro como a falta dela fez do Ventura um álbum extremamente coeso. O disco tem uma identidade mais forte, tanto no som quanto no visual.

Se o Bloco já nasceu atemporal, Ventura já nasceu com cara de consagrado. A própria capa já dava a idéia de disco clássico do rock, transmitia a sensação de um disco lançado 20 anos antes e que você estava ouvindo até hoje porque ele sempre foi uma obra à frente de seu tempo.

E as músicas… bom, falar do quanto elas são incríveis é chover no molhado. Mas vamos lá. Samba a Dois, O Vencedor e Tá Bom fazem, provavelmente, a melhor trilogia de abertura que um disco brasileiro já teve em pelo menos 20 anos. “Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?” é o verso inicial de uma obra que, de fato, desafia os protocolos e esclarece a posição da banda. A gente sabe o que está fazendo, e sabe muito bem, obrigado.

Neste disco, Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante ganham um aspecto Lennon/McCartneyano de ser no que diz respeito à identidade das músicas. Agora é extremamente nítido quem compõe o quê. As facetas de cada um ficam mais expostas, e os temas também. De coração partido à filosofia, cada um traça a seu modo e à sua beleza as crenças e convicções espertas que geram letras lindas como O Velho e o Moço e Conversa de Botas Batidas. Pra mim, duas das canções mais bonitas e emocionantes da história não só da banda mas do pop nacional. Camelo arrisca um eu-lírico feminino na ChicoBuarquiana “A Outra” e Amarante se revela um cronista em “Ultimo Romance”.

O disco tem uma força imponente. Cada faixa é um atestado de autoconfiança, de orgulho do novo material, da certeza de que algo brilhante foi produzido. É a banda se deixando levar pelo caminho natural da própria evolução e refinando seus talentos, se embrenhando à própria sorte, ao próprio acaso. À própria Ventura.

Disco fundamental.

 
12 comentários
 
  • 1. k.
    Fatal error: Call to undefined function get_twitter_link() in /home/adayinth/public_html/wp-content/themes/zannin/comments.php on line 57