Sabe aquele amigo pra quem você liga quando está triste? Sabe aquele amigo pra quem você liga quando está feliz e quer comemorar alguma coisa? Sabe aquele amigo pra quem você liga quando sabe que ninguém mais no mundo vai te entender?
O “Passarim” é um desses companheiros, para mim.
É um disco que faz parte da minha vida assim como fazem meus melhores amigos. Convivo com ele desde bem pequeno, e ele me acompanhou – e acompanha – em todos os momentos importantes da minha vida. Nos bons e nos ruins, ele sempre está lá pronto pra me acudir quando eu preciso. E, principalmente, para me inspirar quando eu preciso.
Pra mim, é a obra fundamental do Tom Jobim, nosso maior mestre, nosso maior gênio musical. É o momento da vida dele onde as composições ganham uma dimensão muito mais profunda e ampla do que a bossa nova, e onde as idéias são mais maduras, mais consistentes, mais emocionantes, mais desafiadoras, mais ricas.
O disco é uma passarela de pequenas obras-primas. São 11 músicas nobres e minuciosamente lapidadas. Cada nota tem uma razão de ser, e Tom se supera minuto após minuto. Aqui, ele faz letra e música se completarem com maestria, em inteligentes jogos de palavras (“Deixa o índio vivo no sertão, deixa o índio vivo nu, deixa o índio vivo”), em irônicos desabafos intercontinentais (“My life is such a mess, let´s have a Brahma”) ou em requintadas declarações de amor (“Bebel que me olha de lado e me encara com olhos de inesperado azul”).
O cara era um monstro. Um gigante. E esse disco é coisa séria. É pérola atrás de pérola. É aula atrás de aula. É um dos maiores gênios brasileiros num de seus momentos mais criativos, mais maduros, mais sinceros e elegantes.
Tom estava em paz consigo mesmo, e transmite o clima bom e o alto astral em todas as músicas. A banda exala empolgação e orgulho. Com certeza eles sabiam que estavam gravando um dos mais impressionantes discos da história da MPB. “Passarim” é um álbum refinado, lindo, emocionante e irretocável. E registra uma época mágica na vida de Tom Jobim.
Não tenho idéia de quantas vezes já escutei esse primor na minha vida. Só sei que é um disco que faz parte da minha formação, da minha educação. Influenciou minha personalidade e meu caráter. Assim como os discos dos Beatles, ele está impregnado na minha alma, é intrínseco à minha pessoa. Não tem jeito, está no sangue.
Nasci e cresci ouvindo “Passarim”. Vou ouvir pra sempre.
No link abaixo, um vídeo lindo feito para um especial da TV Globo, em 1987. (Não era permitido emebedar, por isso o link)
http://zecalouro.com/vid/borzeguimfull.htm
