Sunday, 02 de May de 2010 | 22:07 - Por


Já começo avisando: esse não será um review desse disco e esse texto vai ser bem grande. É difícil me expor dessa forma, mas provavelmente ao final do texto você vai me conhecer melhor. Ele não será um review simplesmente porque não tenho conhecimento para se quer tentar julgar um trabalho desses. O que vou fazer aqui é dizer como esse disco, que conheço há mais de 10 anos, transformou minha vida, há 3 anos, no dia 30 de março de 2008.

2007 foi um ano foda. Foi ano das minhas primeiras férias (sim, fiquei os 7 anos anteriores trabalhando direto), foi o ano que vi Ron Carter no Blue Note em NY, foi ano que The Pretender do Foo Fighters foi lançada, foi o ano que concluiu uma série de coisas pra mim, mas que abriu uma série de novas dúvidas, vontades e principalmente insatisfações.

Comecei 2008 sem energia, cansado, desestimulado com a vida, com o trabalho e com as escolhas que fiz até ali. Pensei em largar a publicidade, pensei que nunca seria feliz, pensei que nada do que estava me esforçando tanto pra fazer daria certo. Eu ficava sempre procurando, mas sem nem saber o que. Na noite do dia 29 para 30 de março eu finalmente entendi qual era a minha dúvida principal.

Um grande amigo e eu nos reuníamos periodicamente para entender tudo o que estava acontecendo. Falávamos de trabalho, dos problemas da nossa equipe, dos problemas dos nossos corações, das mulheres que queríamos e das mulheres que não nos queriam. Isso sempre ajudou a entender tudo e a acordar no dia seguinte sabendo que tínhamos um caminho a seguir.

Nessa noite, o papo foi pesado. Eu estava realmente no fundo do poço, desesperado, ou como ele disse, parado num beco. Perdido, sem saber o que fazer, sem saber a quem chamar pra me socorrer. Saí de lá com a frase: “Se deixar, a vida coloca”. Sempre fui aquele cara planejado, muito conseqüente, e pode-se até ler: cagão. Sempre coloquei muitas condições pras coisas acontecerem comigo, e então sempre fui sozinho. Mesmo ainda vivendo com a minha família, eu sempre me senti sozinho. Sempre rodeado de pessoas selecionadas a dedo, amigos fodas que sempre estiveram lá por mim. Mas sempre sozinho.

No caminho de volta pra casa, a edição deluxe de A Love Supreme estava ali tocando no carro. Sem nem saber porque fui sendo envolvido por cada nota que saia das caixas de som e passei a me questionar. O que aquele disco, que conhecia de cabo a rabo, tentava me dizer por todos esses anos? Nunca tinha parado pra ler nem pesquisar nada sobre ele.

Chego em casa, sem abrir a boca e vou direto pro computador. Dou novamente o play e com ele tocando alto no meu fone comecei minha pesquisa. A cada novo texto que eu lia, eu ia sendo levado mais ainda pro finalzinho do que seria o limite do que eu poderia suportar. Arrepiava, como arrepio agora só de lembrar daquilo tudo. Estava ali vivendo uma epifania, mas mais ainda do que isso, estava fechando um ciclo e abrindo outro.

Era 1965 e John William Coltrane, já um renomado músico, parceiro de Miles Davis e um dos expoentes da renovação do Jazz, viva um momento de conflito, assim como eu. O problema dele era diferente. Na NY dividida pelo racismo e pela opressão a religião que os negros praticavam, a violência e imposição chegaram ao limite da censura. Coltrane preciava falar, botar pra fora mesmo, e não podia. E assim surgiu A Love Supreme. Um grito musical, influenciado por religiões africanas, indianas, cubanas e até pelo candomblé, que dizia basicamente que tinha algo maior do que ele, maior do que todos nós, e que não estávamos mais sozinhos.

Certo dia ele chegou em sua casa, transtornado e assim como eu foi silencioso para o porão. 4 dias depois saiu de lá sereno e disse pra sua mulher que finalmente havia concluído, e que tinha entendido tudo. Os depoimentos dela no livro que conta a história desse disco, são ainda mais contundentes. Ela viu uma nova pessoa nascer na sua frente, essa que anos depois tem seguidores, uma igreja e é chamado de santo por um séquito de adoradores que tentam manter viva a memória desse, que com essa suite de 4 músicas, mudou a história do jazz e sem dúvida mudou a minha também.

A conclusão que Coltrane tirou, e que é escrita em forma de oração no encarte do vinil, é que todo homem deve acreditar e buscar sua própria verdade. Essa verdade não tem nome definido e não tem nenhum livro que se propõe a contar sua história. A Love Supreme foi sua oferenda a esse ser maior, a verdade, e que é o principal elo entre suas dúvidas, sua crença e sua solidão no mundo.

Construída em cima de 4 notas que marcam os sons dessas palavras (a-love / supr-eme), Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm são as 4 partes dessa viagem musical e que virou um símbolo pessoal. Toda vez que estou aflito, triste, transtornado ou mesmo quando sei que alguém precisa do meu apoio, coloco esse disco pra tocar, e ofereço isso. É o mínimo que posso fazer.

Isso pode parecer papo de maluco, mas sim, a partir daquele momento, daquela noite – que através desse símbolo entendi que não estava mais sozinho – minha vida se transformou. Em 6 meses eu estava me mudando pro meu próprio apartamento e começando uma nova jornada em outra agência, vivendo feliz a minha vida solitária, mas agora plena. Coincidência ou não, agradeço ao Mr. Coltrane pela mensagem. Hoje escolho se deixou ou não pessoas entrarem na minha vida e isso é um benefício enorme. E não, não estou tentando te converter a porra nenhuma, e não sou devoto da igreja do cara. Eu simplesmente encontrei respostas, sozinho, e Coltrane foi a trilha.

É realmente complicado pensar em como vocês leitores daqui, vão enxergar essa minha história. Tento não me importar, sabendo que do lado de cá, tudo o que tenho é a verdade. Caso não se identifique com a jornada, pelo menos se de ao trabalho de escutar esse disco, com o coração aberto. São só 32 minutos. 32 importantes minutos.

Obrigado pela paciência e pela visita.

A Love Supreme Part I: Acknowledgement

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A Love Supreme Part II – Resolution

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A Love Supreme, Part III: Pursuance

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A Love Supreme, Part IV-Psalm

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9 comentários
 
  • 1. Fernando Giannini
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