A dobradinha 1968/1969 foi turbulenta para o mundo inteiro. O planeta ainda via a poeira do “ano que nunca acabou†completamente densa e custando a abaixar. Guerra do Vietnã, álbum branco dos Beatles, Woodstock, lançamento da Apollo 8, homem na lua, Kubrick fez sua Odisséia no Espaço, Martin Luther King e Kennedy foram assassinados e, aqui no Brasil, o AI-5 entrava em ação com toda a fúria e censura que viria a marcar todo o perÃodo militar do nosso paÃs. No campo da música, os artistas repeliam a “inquisição†e faziam nascer alguns dos movimentos mais sólidos da história da MPB. A Tropicália, capitaneada por Caetano e Gil, ganhava força e impacto, e emplacava alguns dos hits que se tornariam clássicos eternos da nossa música.
E, no meio de toda a intelectualidade intrÃnseca à s raÃzes do movimento tropicalista, começava a despontar em outra direção um nome que já tinha ficado conhecido no meio musical mas que ainda não tinha conseguido galgar seu lugar de respeito entre os bambambans da nata de compositores emepebistas.
Jorge Ben surgira em 63/64, entoando suas canções singelas e seu “esquema novo†de fazer samba com Mas Que Nada, Por Causa de Você e Chove Chuva, e se transformara em fenômeno popular, vendendo discos adoidadamente e garantindo sua presença nos bailinhos da juventude daquela época.
Mas como é que podia alguém fazer sucesso sem ser politizado? Sem cutucar a ditadura? Sem mostrar que tinha background polÃtico/artÃstico europeu ou americano? Como é que podia alguém vender mais discos do que os tropicalistas usando temas ingênuos do dia-a-dia, pedindo pra chuva não molhar seu amor, pedindo para você sair da frente porque ele queria passar, comemorando que “oba, lá vem ela†ao ver sua menina se aproximar?
Jorge Ben podia. Só ele.
E simplesmente porque ele estava provando por A + B que música boa não precisava ser “cabeçaâ€. A intelectualidade dele estava na mão direita do violão, com ritmos inimitáveis até hoje, se tornando ele o grande pai/fundador do que hoje chamamos de “samba-rockâ€. A intelectualidade dele estava na própria simplicidade das letras, e até na ousadia de ser tão simples. Cada música é como se fosse um desabafo na mesa do bar, um bate-papo informal sobre as sensações e amores nossos de cada dia.
E, em 1969, Jorge Ben fez um disco que amadureceu e marcou profundamente seu estilo. Uma pérola em termos de arranjo, de produção e de composição. Um disco que, no meio do furacão tropicalista e do torpor hippie que regia o comportamento universal, relembrava os pequenos valores do cotidiano brasileiro. Jorge exaltava as pequenas coisas da vida, como sua “Criola†(uma das maiores pérolas de toda a sua carreira, uma das mais imaginativas e criativas melodias da MPB, tanto vocal quanto dos metais), seu Flamengo (estampado até na capa), suas musas (Barbarela, Tereza) e, principalmente, amenizava o clima pesado do militarismo relembrando a todos que a melhor maneira de valorizar um paÃs é ajudar seu povo a lembrar das suas qualidades, mesmo quando a nuvem cinzenta da censura não deixava mais ninguém ver a luz.
E, assim, Jorge Ben fez, nesse disco, uma das maiores alegorias e hinos da história da música popular deste paÃs. “PaÃs Tropical†é, até hoje, um dos maiores sÃmbolos brasileiros e traduz como poucas outras musicas a essência do nosso povo e da nossa cultura.
É suingue como nunca havia sido feito antes por um violonista brasileiro. São arranjos feitos pelo mestre Rogerio Duprat – o guru da Tropicália – e são composições tão versáteis que permanecem vivas e atuais até hoje.
Jorge Ben provou, com esse disco, que merecia seu lugar entre os nomes mais respeitados da MPB. E, mais de 40 anos depois, a história mostra que ele merecia. O disco é um petardo. Uma pérola incontestável de um estilo que nascia para crescer e ficar para sempre.
Salve, Jorge.
