Aos poucos nossos amigos vão percebendo que há um espaço livre para falarem daquilo que mexeu com eles. Felizes aqui por receber a mensagem perguntando se “tá de pé” o papo de escrever por aqui. E sim, está. Marcos Piccinini foi ontem ao show do Franz e mandou isso pra nós. Super texto.

Franz Ferdinand é como uma raça de cachorro que ninguém conhecia. Para alguns é estranho, para outros é lindo, e se você deixar ele cruzando sempre com a mesma raça, vai dar sempre o mesmo resultado. Franz é uma banda com pedigree: facilmente reconhecÃvel, e bem diferente de tudo que veio antes.
A prova disso é simples: ouça bastante qualquer uma de suas composições mais emblemáticas, como “Take Me Out” no primeiro disco, “Do You Want To” no segundo ou “No You Girls” no terceiro. Ouça umas 3 vezes. Pronto: você vai ser capaz de reconhecer qualquer música que esses caras fizeram.
Em várias outras bandas, isso seria mesmice. Não neles. O pedigree é o mesmo, mas cada filhote nasce com uma caracterÃstica.
O 1o disco, com o nome da própria banda, é uma declaração de independência. Em todos os sentidos: uma banda escocesa lançando disco por gravadora independente, e alcançando top 3 das paradas inglesas. E com um som realmente novo: bateria forte, para fazer neguinho pular e bater cabeça, mas com baixo inteligente e guitarras com riffs e acordes hipnóticos, o ponto “destoante” do punk tradicional. Sim, punk, na falta de rótulo melhor. E uma das maiores caracterÃsticas da banda: os vocais bem pensados, no ponto certo, e levemente debochados de Alex Kapranos.
Todas as caracterÃsticas permaneceram no segundo disco, “You Could Have Been So Much Better”. Por sinal, uma prova de que a criatividade desses caras é realmente forte: o primeiro disco é de 2004, o segundo de 2005, ambos só com composições inéditas. O segundo tem mais nuances, além dos ritmos alucinantes e da eletrônica/eletricidade do primeiro. Minha opinião pessoal: “You Could Have Been…” é um daqueles pouquÃssimos discos que não tem nenhuma música “pulável”. É animal.
E o terceiro, “Tonight”, lançado no ano passado, segue tudo. Sim, os caras descobriram seu som, e estão se dando bem em cima disso. Mas, diferente de outros artistas com suas “fórmulas de sucesso”, Franz Ferdinand não é chato, não é careta. Eles se mantém fiéis, mesmo sendo criativos. Eu curto essa raça de cachorro.
O show deles de ontem no Via Funchal foi uma prova dessa criatividade.
Punks, emos, yuppies e um monte de adolescentes, gente realmente de todos os tipos, todos pulando e se divertindo. Muito.
Para mim, o ponto alto (fora a temperatura, que estava realmente alta, por falha feia do Via Funchal) foi quando todos os quatro deixaram seus instrumentos, pegaram duas baquetas cada e foram tocar bateria. Uma única bateria. Foi um pequeno show do Stomp no final de “Outsiders”. É mais ou menos o que está neste vÃdeo, só que aqui teve uns 8 minutos de duração. Foi espetacular. Mal vejo a hora de eles voltarem para São Paulo, porque o show de ontem foi Rio 40º demais para mim. Mas valeu.
