Compro cds feito um manÃaco. Daqueles que vão a lojas de discos todos os finais de semana pra saber se algo novo chegou. Compro coisa que nem conheço.
Um certo final de semana, depois de passar muito tempo amolando o vendedor atrás de blues, ele me pergunta se já tinha ouvido o novo disco da banda do Derek Trucks.
Já tinha ouvido falar do cara, Allman Brothers e tal. Mas não sabia muito sobre ele não. Pela capinha, resolvi apostar. (Faça uma pesquisinha sobre o cara, suas referências e descubra porque que ele é foda).
Cheguei em casa e logo fui fazer o ritual. Quase como naquele escurinho que precede o filme no cinema, abri o plástico, retirei com cuidado o adesivo que estava nele e o colei na caixinha, no mesmo lugar.
Coloquei o disco para tocar e fui logo pro encarte. Logo de cara a frase: “Some music feels like home on the very first spin: welcoming, familiar, easy to slip into.” Tudo verdade.
Nesse momento, as primeiras notas de Down in the Flood (música em destaque no adesivinho que citei acima) invadem a minha sala. Violão aço na base, bota batendo no chão de madeira… climão para receber a protagonista. Derek Trucks é um mestre dos slides, e entra com sua Gibson SG soando como algo que você nunca ouviu. É incrÃvel. Melodias lindas quase que cantadas pelas cordas. Na seção para as fotos da capa da Rolling Stone de Fevereiro de 2007, John Mayer falou a frase que identificou o som de Derek Trucks pra mim. “Ele faz sua guitarra soar como a voz uma cantora de jazz dos anos 60″.
O disco todo soa como uma livre jam session, as vezes numa casa no meio do nada, as vezes em uma igreja, as vezes num bar qualquer e passeia por electric rocks, southern gospel e blues acústicos. Um daqueles discos que você pode colocar pra tocar no carro, em casa com sua famÃlia, bêbado com seus amigos… pode ser como música ambiente ou alto em seu fone – recomendado para escutar todo o trabalho de timbres, melodias e lindos coros de vozes.
Além da guitarra que chora quando solicitada, um enorme destaque para Mike Mattison, que traduz em pequenos detalhes tudo o que pode-se chamar de soul na voz de alguém. Muito feeling, muito ar e muito bom gosto nas harmonias com os backing vocals.
Outro destaque vai para Back Where I Started, acústica e com partipação de Susan Tedeschi, a linda e ruiva esposa de Derek, que tem uma voz forte e suave que faria qualquer um se apaixonar ao ouvir no refrão “I’m so glad I found you there…”
55 minutos depois, o disco termina com a faixa tÃtulo, Already Free, que tanto traduz o momento de pausa na turnê com a Allman Brothers Band, como também uma certa aceitação de que finalmente encontrou o propósito de sua música. O tempo todo esta faixa é permeada por suaves chiados de vinil, que trazem todo o gostinho de uma música verdadeira e analógica, raridade nos dias de hoje.
O que ficou comigo depois disso foi vontade de cantar blues naquele instante, seguido de uma calma boa, a mesma que sinto agora escutando o disco mais uma vez para escrever isso aqui.
Escute Down in the Flood, o começo desse passeio e procure pelo resto do disco (ou compre no amazon).
